Traição na Tradição: A verdadeira história do sedevacantismo
Prefácio do Controvérsia Católica
Dom Tomás de Aquino recentemente mandou publicar um velho artigo de Monsenhor Williamson contra os nove sacerdotes americanos, dentre os quais estava o nosso Reverendíssimo Monsenhor Daniel Dolan, sacerdotes que nos idos de 1983 foram expulsos da Fraternidade São Pio X em razão dos diversos compromissos que esta tinha firmado com os modernistas.
Na missiva que precede o artigo, Dom Tomás se diz motivado pelo fato de muitos católicos não conhecerem bem a história do sedevacantismo. Um nobre ideal, alguém poderia dizer, mas que de nenhum modo foi alcançado pela publicação do artigo em questão, o qual – verdade seja dita – somente serve para aumentar a ignorância sobre a história do sedevacantismo.
De fato, se existe algum texto desinformativo neste respeito, este é precisamente o artigo de Dom Williamson, falho tanto na cobertura dos acontecimentos quanto nos critérios de avaliação dos fatos históricos. Que ele seja assim, porém, não nos surpreende: pouco se deveria esperar do mesmo homem que naquele tempo foi o principal agente de discórdia entre Monsenhor Lefebvre e os nove sacerdotes injustamente expulsos da Fraternidade.
No tocante aos fatos históricos, o artigo oculta que a querela de então girava em torno de problemas bem graves, que podem resumir-se nos seguintes pontos:
- A escandalosa imposição das reformas litúrgicas de João XXIII na Missa do Seminário de Ridgefield, ação contrária aos usos locais e ao próprio estatuto da Fraternidade São Pio X;
- A inescrupulosa admissão de padres ordenados no rito novo, sem qualquer ordenação condicional, ação guiada pelo respeito humano e contrária ao mínimo de prudência que se deve ter em questões sacramentais;
- A exigência de uma obediência indevida a superiores religiosos, como se eles tivessem o poder de legislar sobre a liturgia e a lei da Igreja, ação que contradiz a natureza do próprio oficio que ocupam e que usurpa as prerrogativas do Magistério da Igreja;
- A descaridosa expulsão, sem nenhum amparo legal, de sacerdotes que dissentiam dos caprichos do dia dos superiores da Fraternidade, postura contraria à lei canônica e à finalidade mesma da Fraternidade São Pio X, estabelecida para manter-se fiel à Tradição e não para constituir uma seita funada no culto de homens;
- A aceitação dos anulamentos matrimoniais feitos pelos modernistas sem qualquer investigação, ação que produz escândalo público, dano à vida familiar e cumplicidade com os modernistas.
Todas essas coisas motivaram a reação dos nove sacerdotes que formal e respeitosamente pediram a Monsenhor Lefebvre e ao Conselho Geral da Fraternidade que as tratasse com a devida consideração. A resposta viria um mês depois com a expulsão dos nove da Fraternidade São Pio X. Quem quer que considere os motivos verá que a expulsão foi injusta e fundada em nada além de compromissos com o modernismo.
No que toca aos critérios de avaliação dos fatos, a base de tudo, como de costume, consiste no culto à personalidade de Monsnhor Marcel Lefebvre, como se ele fosse tão irrepreensível como Nosso Senhor Jesus Cristo, independentemente de todos os posicionamentos nada tradicionais, em grande medida absurdos e abusivos então realmente assumidos por ele e pela sua obra. De fato, qualquer tradicionalista minimamente informado sobre a reforma litúrgica de João XXIII e o estado dos anulamentos matrimoniais na seita modernista, especialmente nos Estados Unidos pós-conciliar, sabe muito bem que a traição a Jesus Cristo está antes em forçar a observância dessas mudanças para toda a Fraternidade do que em colocar-se contra elas. Fique isso bem claro: os nove se levantaram especificamente contra uma aliança entre a Fraternidade e os modernistas e não contra o que há de irrepreensível no obrar de Monsenhor Marcel Lefebvre. O texto de Dom Williamson, porém, esconde essa dura verdade através da indevida divinização de Monsenhor Marcel Lefebvre, ali tratado como se fosse a pessoa do Verbo de Deus humanado.
Esta atitude de apoio incondicional aos eventuais compromissos de Monsenhor Lefebvre e da Fraternidade com o modernismo é verdadeiramente fanática e engendra ela mesma uma falsificação histórica gigantesca: presume-se que Monsenhor Lefebvre seja o alfa e o ômega da Tradição e que todos os demais sejam ou seus servidores e portanto amigos da Tradição, ou seus adversários e portanto inimigos da Tradição. A fim de remediar este erro de interpretação tão corriqueiro entre os tradicionalistas, erro que nada tem a ver com a justa admiração que se deve ao que ele fez de bom, apresento ao público de língua portuguesa o seguinte artigo de Padre Ricossa, vertido em espanhol pelo Padre Héctor Romero, acerca da verdadeira história do sedevacantismo. Por meio dele, o leitor compreenderá que o sedevacantsmo é mais antigo e mais fiel à Tradição do que o posicionamento tardio e inconsistente assumido pela Fraternidade São Pio X.
A VERDADEIRA HISTÓRIA DO SEDEVACANTISMO:
RESPOSTA AO DOCUMENTO DA FRATERNIDADE SÃO PIO X CONTRA O SEDEVACANTISMO
O sedevacantismo não foi tardio, Inclusive até foi "preventivo"! Há tomadas de posição sedevacantistas a respeito da questão do Papa desde 1962 em diante.
O autor do número especial da Tradizione Cattolica é um jovem que na vida não conheceu outra coisa senão a Fraternidade. Talvez isso explique a sua ignorância sobre a história do "tradicionalismo", apesar das "pesquisas diligentes" (cf. pág. 29, nota 7) efetuadas. Já que ele mesmo nos pergunta (ibidem), demo-lhe alguma informação a respeito.
Demonstraremos que, em certo sentido, o sedevacantismo existia inclusive antes de 1965, e que a questão do Papa tinha sido o centro das discussões dos "tradicionalistas" (sedevacantistas ou não) desde o princípio; enquanto que a "solução prudencial" (que consiste no desinteresse pala questão, considerada secundária senão ociosa e nociva) tem sido propriedade exclusiva da Fraternidade São Pio X.
Os católicos mexicanos. O Padre Sáenz y Arriaga (1962-65)
: "Sobretudo, há que mencionar o libelo de quatro páginas que receberam os bispos. Está precedido por este título, tão largo como curioso: 'Nenhum concílio nem Papa algum podem condenar a Jesus, nem à Igreja Católica Apostólica Romana, nem a seus Pontífices e Concílios mais ilustres. Ora bem, a declaração sobre os judeus comporta implicitamente uma tal condenação e por esta razão deve rechaçar-se-la'. Neste texto, leem-se estas impressionantes afirmações: 'Os judeus desejam agora empurrar a Igreja a condenar-se tacitamente e desacreditar-se ante o mundo inteiro. É EVIDENTE QUE SÓ UM ANTIPAPA E UM CONCILIÁBULO PODERIAM APROVAR UMA DECLARAÇÃO DESTE GÊNERO. E ISTO É O QUE PENSAM JUNTO CONOSCO UM NÚMERO CADA VEZ MAIOR DE CATÓLICOS DE TODO O MUNDO QUE ESTÃO DECIDIDOS A OBRAR DO MODO QUE SEJA NECESSÁRIO PARA SALVAR A IGREJA DE SEMELHANTE IGNOMINIA' (...)". Portanto, os historiadores de La Tradizione Cattolica deveriam admitir que o "sedevacantismo" não veio à luz em 1973-76, senão que tomou posição pública dirigindo-se a todos os Padres conciliares de 1962 a 1965, ou seja, do princípio ao fim do Vaticano II. Também teriam que admitir que ditos católicos condenaram a declaração Nostra Ætate, enquanto que Mons. Lefebvre (que também havia exigido o rechaço, juntamente com Mons. Carli e Mons. Proença Sigaud, mediante uma carta aos Padres conciliares distribuída na aula a 11 de outubro) não fez parte – segundo suas próprias declarações – dos 88 Padres que não votaram o documento conciliar a 28 de outubro de 1965. Estes fatos históricos sozinhos demolem completamente todas as teses de La Tradizione Cattolica, fundadas sobre o caráter tardio do sedevacantismo. Para completar, acrescentarei outros testemunhos sobre a existência do "sedevacantismo" antes de 1973-76, data de nascimento desta posição segundo os diligentes historiadores de La Tradizione Cattolica.
O Padre Guérard des Lauriers, o Padre Coache (1969)
(antes da promulgação do novo missal, ocorrida em novembro do mesmo ano). Se transladaram até o abbé de Nantes o Padre Philippe Rousseau, os sacerdotes mexicanos Sáenz y Arriaga e Charles Marquette, o Padre Coache e o Padre M. L. Guérard des Lauriers, mais um leigo de Versailles (Alain Tilloy); o Padre Barbara já era hóspede do abbé de Nantes de forma independente ao grupo que fazia a visita. Segundo o testemunho do abbé de Nantes e seus religiosos, os sacerdotes que vieram visitá-lo sustentavam a invalidez da missa nova e a vacância da Sé Apostólica. Uma confirmação deste testemunho se acha em uma carta de Padre Guérard des Lauriers ao abbé de Nantes de 8 do agosto seguinte, em que faz referência à visita de 21 de julho e sustenta que ficou demonstrado – a partir da aprovação do novo missal – que o "cardeal Montini" não é Papa.
Argentina, Estados Unidos, Alemanha... (1967-69)
A influência do abbé de Nantes (naquele tempo enorme, em razão de sua oposição ao Vaticano II desde o princípio) punha em duvida pessoas como o Padre Barbara ou, na Argentina, o Prof. Disandro, que já em maio de 1969 postulavam todavia também eles a questão da sede vacante. Nos Estados Unidos não faltaram de pronto os "sedevacantistas", desde 1967 pelo menos, senão antes, como atesta a carta do Dr. Kellner ao Cardeal Browne de 28 de abril dese ano. Igualmente na Alemanha, onde se havia fundado o Una Voce-Gruppe Maria em 1966. Desde 1969, o Prof. Reinhard Lauth, da Universidade de Munique, declarou-se pela vacância da Sé Apostólica. Portanto, a tese da TC (nenhum rastro de "sedevacantismo" antes de 1973-76) também se demonstra universalmente falsa.
Notas:
do arcebispo de Hermosillo, Juan Navarrete. O livro foi publicado em italiano em Roma (31 de agosto de 1962), e distribuído a todos os Padres conciliares em outubro. A edição austríaca é de 20 de janeiro de 1963; a venezuelana de 15 de dezembro de 1963; as mexicanas, de 1968 e 1969 (usarei a edição de 1969). O livro foi preparado nos 14 meses prévios. O livro de Maurice Pinay (se trata de un pseudônimo) foi apresentado também ao público italiano em Sodalitium n. 37, abril-maio de 1994, págs. 33-45 [ed. it.; ed. fr., n. 37, out.-nov. 1994, págs. 28-40]: O complô judeo-maçônico contra a Igreja Romana. Este artigo corresponde ao cap. XX do livro de PADRE NITOGLIA, Per padre il diavolo. Un'introduzione al problema ebraico secondo la tradizione cattolica, SEB, Milán, 2002.
).
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