Em artigo publicado no portal Radio Cristiandad, Rafael Gambra Ciudad denuncia o grau de desarme moral imposto ao catolicismo espanhol e o abismo de abjeção a que chegaram os porta-vozes mais destacados da Igreja na Espanha, diante da campanha do governo socialista contra a Igreja Católica no mês de maio, mês da Virgem. O autor analisa a reação omissa e cúmplice dos jornais supostamente católicos e conservadores de Madri, que condenam os ataques sacrílegos apenas em nome da democracia, e não do honor de Deus, revelando uma profunda crise de fé nos próprios pastores da grei.
O grau de desarme moral que se impôs ao catolicismo espanhol e o abismo de abjeção a que chegaram os porta-vozes mais destacados da Igreja na Espanha são hoje já tão profundos que não resulta possível silenciá-los sem cair numa cumplicidade por omissão. Ocasão para esta triste evidência foi a campanha desencadeada no mês passado pelo governo socialista contra a Igreja Católica e, de modo geral, contra a religião. Foi como «um pulso» que o socialismo lançou a seus únicos possíveis adversários para saber se a religiosidade católica existe ainda na Espanha ou se pode já prescindir-se dela.
O mês de maio — o mês da Virgem — foi o tempo escolhido para esta prova de fogo perfeitamente programada. Primeiro foi a representação pelos grupos cênicos catalães Els Joglars e Els Comediants de vários espetáculos sacrílegos e blasfematórios em diversas cidades da Andaluzia, a terra de Maria Santíssima. Particularmente «O triunfo do Inferno», protagonizado por demônios, que terminou em Sevilha com uma manifestação blasfema que proclamava a inexistência de Deus e proferia obscenidades contra a Igreja e as coisas sagradas. Espetáculos, não só tolerados, mas patrocinados e subvencionados pelas autoridades socialistas, estatais e municipais.
Depois foram os episódios da Televisão oficial, na série «Espanha, história imediata», particularmente o intitulado «Uma Igreja arraigada», no qual se desacredita por ativa e por passiva a Igreja e se justificam as espoliações à mesma durante a República e inclusive os incêndios de templos e matanças de clero e de fiéis na zona vermelha. Ao obrar assim, os marxistas estão em seu papel, e a ninguém podem surpreender. Quem conheça sua doutrina e tenha vivido a fúria sacrílega da época em que mandaram sozinhos não pode senão vê-lo lógico.
O verdadeiramente extraordinário é a reação (ou mais bem a anti-reação), dos porta-vozes com maior audiência da Igreja oficial. Tenho ante mim os comentários que a tais fatos dedicam os dois diários madrilenhos mais qualificados como católicos e conservadores, no passado 22 de maio. Um deles — oficialmente «católico» — se lamenta em seu editorial destas agressões à Igreja e assinala como no referido programa televisivo se reconhecia só um erro na política da II República: seu ataque frontal contra a Igreja. E se pergunta com assombroso assombro «não se está caindo, em boa parte, no mesmo erro? É que segue sendo a Igreja, apesar de seu claro afã pelo afastamento do poder político e do humilde reconhecimento de seus erros históricos, o grande inimigo de fundo a bater pela ideologia no poder? Resulta a Igreja para os homens no poder um escolho tão perigoso como o próprio terrorismo? A suspeita — conclui —, com ser tão grave, não deixa de aflorar».
Dir-se-ia que a aspiração do editorialista se cifraria em que o socialismo no poder não incorresse no erro de atacar frontalmente a Igreja e se ativesse à tática muito mais inteligente e eficaz, de atacá-la lateralmente, infiltradamente; isto é, como seus mais inteligentes e acerados inimigos desejariam que se a atacasse. Dir-se-ia também que o comentarista ignora que ETA e o partido no poder compartilham a ideologia marxista-leninista, e que seu atual (presunto) enfrentamento é só circunstancial ou tático, ao passo que sua comum hostilidade à fé católica e à verdadeira Igreja é visceral, de raiz. Dir-se-ia, enfim, que ele se crê revestido da pureza dos céus para ditar sobre os erros pretéritos da Igreja e sua humilhação pelos mesmos, sendo assim que só eles — sua mentalidade progressista — são o autêntico erro e o câncer no seio da Igreja.
Por suposto, sua condenação daqueles fatos injuriosos e sacrílegos não é nunca em nome da honra de Deus, mas em nome da democracia, seu verdadeiro deus. Trata-se unicamente de que «ofendem o sentimento religioso da maioria de nossa sociedade». Tal é, assim mesmo, o único protesto que elevaram nossos atuais prelados (os que protestaram), que não veem nisso mais que uma ofensa à maioria, à democracia e ao Homem moderno. Trata-se, ao parecer, de pequenos abusos que entorpecem o desenvolvimento da democracia, bem último e supremo.
No outro diário conservador e supostamente católico, firma o protesto por esses fatos um clérigo-jornalista. Para ele não se trata sequer de uns fallos acidentais da democracia que gozamos, mas de um último ramalazo da guerra civil espanhola. Ele — declara — «leva cinquenta anos tratando de entender por que os espanhóis fizemos aquela guerra, a mais grande das vergonhas nacionais de nossa história». Ao parecer, a um clérigo (presuntamente) católico, não lhe diz nada a luta de um povo (o seu), em defesa de sua própria fé frente aos exércitos da impiedade e do ateísmo. Nem os treze bispos e quase sete mil sacerdotes como ele assassinados simplesmente por sê-lo. Ele — se por um impossível histórico se houvesse encontrado naquela coyuntura — teria aberto seu templo aos profanadores e se teria empregado em buscar um «diálogo» entre assassinos e vítimas, em lograr uma «fórmula de consenso» entre quem saquearam as igrejas de meia Espanha e quem marchavam rezando a combater por sua fé. Por suposto, não se priva de lançar sua pedra contra a Igreja de então, que para ele não foi inteiramente inocente daquela guerra. Em fim — conclui — fatos como esses «só podem ser qualificados como um apêndice bárbaro de uma guerra sangrenta». (Já o sabem vocês: Els Joglars e Els Comediants, assim como a TV de Calviño, são sufragados pelo catolicismo pré-conciliar. Dictamen dos novos curas.).
Se assim falam os mestres da grei, que pensarão — ou em que inópia viverão — os discípulos?
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