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Pio de Pietrelcina: o santo do sobrenatural e o primeiro sacerdote estigmatizado

7 de outubro de 2026 às 00:19

Pio de Pietrelcina: o santo do sobrenatural e o primeiro sacerdote estigmatizado

Padre Pio de Pietrelcina, o primeiro sacerdote na história da Igreja a receber os estigmas de Cristo, em 1918, enfrentou perseguições e humilhações, inclusive por parte de autoridades eclesiásticas, mas permaneceu obediente e fiel, tornando-se uma das figuras religiosas mais amadas e veneradas do povo católico.

Padre Pio de Pietrelcina, o primeiro sacerdote na história da Igreja a receber os estigmas de Cristo, em 1918, enfrentou perseguições e humilhações, inclusive por parte de autoridades eclesiásticas, mas permaneceu obediente e fiel, tornando-se uma das figuras religiosas mais amadas e veneradas do povo católico.

O sobrenatural não se revela apenas em aparições ou visões extraordinárias, mas também na vida comum dos santos, que representa uma das mais importantes formas de expressão da presença de Deus na história. O século XX, em comparação com outras épocas, foi pobre em santos. E, no entanto, uma figura carismática parecia reunir em si uma grande parte daqueles dons extraordinários que faltavam amplamente ao seu tempo. Essa figura era o Padre Pio de Pietrelcina. Em sua pessoa, o sobrenatural impôs-se novamente à atenção de um mundo que pensava poder explicar tudo por meio da ciência e da técnica. Ele foi o primeiro sacerdote na história da Igreja a receber os estigmas, aqueles sinais visíveis da Paixão de Cristo impressos em seu corpo. Em torno do estigmatizado de San Giovanni Rotondo, seguiram-se inúmeros relatos de curas, milagres, bilocações surpreendentes, profecias e conhecimento das consciências. Entre muitos outros, mencione-se o caso da médica Wanda Półtawska, que atribuiu ao Padre Pio sua cura milagrosa de um tumor. Em 17 de novembro de 1962, o então bispo auxiliar de Cracóvia, Karol Wojtyła, escreveu ao capuchinho pedindo que rezasse por ela. Numa segunda carta, agradeceu-lhe e relatou que a mulher havia recuperado a saúde subitamente, antes mesmo que a intervenção planejada pudesse ser realizada.

Francesco Forgione nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina. Em janeiro de 1903, entrou no noviciado dos capuchinhos e tomou o nome de Irmão Pio. Em 1907, fez os votos solenes, foi ordenado sacerdote em 1910 e chegou a San Giovanni Rotondo em 1916. Ali, em 20 de setembro de 1918, os estigmas apareceram em seu corpo. Eles permaneceram abertos e sangrando por cinquenta anos completos, depois que ele viu, numa visão, Jesus Cristo crucificado, que lhe disse: 'Eu te uno à minha Paixão'. O sofrimento marcou toda a sua vida. Ele o ofereceu pela conversão das almas e o uniu a uma incansável atividade no confessionário, bem como a obras concretas de caridade ao próximo. A mais conhecida entre elas é a Casa Sollievo della Sofferenza ('Casa de Alívio do Sofrimento'), o hospital que ele mandou construir em San Giovanni Rotondo, para unir o tratamento do corpo ao cuidado espiritual dos doentes.

O Padre Pio sofreu corporalmente a Paixão de Cristo, mas também sofreu espiritualmente com as calúnias e perseguições a que foi exposto, inclusive por parte de autoridades eclesiásticas. O fenômeno dos estigmas e a fama do religioso como santo desencadearam em toda a Itália um movimento de piedade e provocaram um enorme fluxo de pessoas a San Giovanni Rotondo. A presença do Padre Pio, porém, perturbava a situação moral negligente em que se encontrava a diocese de Manfredonia, marcada pelo comportamento imoral do arcebispo Pasquale Gagliardi e de alguns de seus colaboradores. O arcebispo e esses sacerdotes acusaram o incômodo capuchinho de seduzir mulheres e de ter produzido artificialmente os estigmas, a fim de se livrarem dele. Entre os apoiadores da campanha contra o Padre Pio estava o Padre Agostino Gemelli, que visitou o religioso em San Giovanni Rotondo em 1920, para examinar os estigmas. O Padre Pio, no entanto, não concordou em mostrá-los sem uma autorização do Santo Ofício. Embora o Padre Gemelli não tenha examinado o capuchinho de modo algum, enviou ainda naquele mesmo dia um relatório a Roma, no qual declarava considerar os estigmas como fenômenos somáticos de natureza histérica.

O Santo Ofício encarregou então o bispo Raffaello Carlo Rossi de realizar uma investigação. Rossi era um piedoso carmelita, bispo de Volterra e futuro cardeal. Após uma investigação minuciosa, apresentou em janeiro de 1922 um documento de 123 páginas com 27 documentos. Nele, refutou a tese do Padre Gemelli de uma 'auto-estigmatização' por parte do Padre Pio e declarou que 'o extraordinário que acontece na pessoa do Padre Pio não pode ser explicado quanto ao modo como ocorre; mas certamente não ocorre nem por influência demoníaca, nem por engano ou fraude'. 'O futuro', escreveu o inquisidor do Santo Ofício, 'revelará o que hoje ainda não se pode reconhecer na vida do Padre Pio de Pietrelcina'. Entretanto, alguns leigos tomaram publicamente partido pelo capuchinho. Destacaram-se especialmente o prefeito de San Giovanni Rotondo, Francesco Morcaldi, e o empresário Emanuele Brunatto, que reuniu documentos e depoimentos de testemunhas para refutar as acusações levantadas contra o Padre Pio. Em junho de 1925, Brunatto foi a Roma, levando consigo dois volumosos maços de documentos. Seguindo o conselho de Dom Luigi Orione, encontrou-se com o Cardeal Merry del Val, secretário do Santo Ofício. O cardeal ouviu-o com atenção, examinou os documentos que lhe foram apresentados e o tranquilizou com as palavras: 'Não, senhor Brunatto, o Santo Ofício não condenou o Padre Pio. Quando a Congregação Suprema quer condenar um sacerdote, ela o suspende a divinis. Finalmente, não esqueça que todos os santos tiveram que enfrentar provações durante a vida, às vezes muito graves'.

Uma Visitação Apostólica realizada de 26 de março a 5 de abril de 1927, sob o mais estrito sigilo, forçou o arcebispo Gagliardi a renunciar como bispo de Manfredonia. Mas, após a morte do Cardeal Merry del Val, em maio de 1931, o Santo Ofício retirou do Padre Pio a permissão de ouvir confissões e de celebrar publicamente a Santa Missa. Essa restrição durou até julho de 1933, mas a disputa não se acalmou com isso. Entre as investigações canônicas mais humilhantes a que o Padre Pio foi submetido nos anos seguintes, esteve aquela determinada por João XXIII. De 13 de julho a 2 de outubro de 1960, ele enviou o bispo Carlo Maccari como Visitador Apostólico a San Giovanni Rotondo. Esse período ficaria na memória como a fase da mais dura perseguição a que foi exposto o santo de Pietrelcina. Somente em 1964, sob Paulo VI, ele recebeu novamente a liberdade de exercer seu ministério sacerdotal. O Padre Pio aceitou as decisões de seus superiores eclesiásticos sem romper com a Igreja, à qual consagrara sua vida. Obedeceu mesmo quando a obediência significava para ele estar separado dos fiéis que o procuravam como confessor e das almas que ele dirigia espiritualmente. Continuou a considerar a Igreja como sua casa, também nos anos em que alguns de seus representantes lhe tornaram a cruz ainda mais pesada. Essa atitude, no entanto, não significa que não houvesse espaço para tornar públicos os acontecimentos reais. A Providência colocou ao seu lado uma verdadeira legião de jornalistas, historiadores, cientistas e simples fiéis, que o defenderam decididamente e contribuíram para restabelecer a verdade diante das acusações injustas. No ano de 1967, o Padre Pio confiou à sua sobrinha Pia Forgione quanto tempo ainda lhe restava de vida. A jovem escreveu a conversa por escrito e depositou o documento em um cartório, antes que seu tio morresse, em 23 de setembro de 1968. Pio de Pietrelcina foi beatificado em 1999 e canonizado em 2002 por João Paulo II. Hoje é uma das figuras religiosas mais conhecidas, mais amadas e mais veneradas do povo católico. Sua memória litúrgica é celebrada em 23 de setembro.

*Roberto de Mattei, historiador, pai de cinco filhos, professor de História Moderna e História do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma. De Mattei é também autor de numerosas obras de referência, presidente da Fundação Lepanto para a preservação da tradição católica, editor do intermédio Corrispondenza Romana e da revista mensal Radici Cristiane. De 2002 a 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisa italiano (CNR), com competência para as ciências humanas. Publicou mais de trinta livros, traduzidos em numerosos idiomas. Tradução: Giuseppe Nardi. Imagem: Corrispondenza Romana.


📎 Fonte original: Katholisches

📎 Fonte original: Katholisches

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