Fiéis católicos tradicionais canadenses realizaram uma peregrinação ao santuário dos Santos Mártires Canadianos, em Midland, Ontário, desafiando a proibição imposta pelo Cardeal Thomas Collins, Arcebispo de Toronto, que havia vetado a celebração da Missa Tradicional no local. O episódio reacende a tensão entre os fiéis ligados à liturgia tradicional e a hierarquia eclesiástica no Canadá, no contexto das restrições impostas pelo motu proprio Traditionis Custodes.
A peregrinação anual ao santuário dos Santos Mártires Canadianos, em Midland, Ontário, ocorreu neste ano apesar da proibição expressa do Cardeal Thomas Collins, Arcebispo de Toronto, que havia comunicado aos organizadores a impossibilidade de se celebrar a Missa Tradicional no recinto do santuário. O evento, que reúne tradicionalmente centenas de fiéis devotos dos mártires jesuítas do século XVII, foi mantido pelos organizadores, que buscaram alternativas para garantir a realização das cerimônias religiosas fora dos limites da propriedade controlada pela diocese.
O santuário de Midland é dedicado aos oito missionários jesuítas — entre eles São João de Brébeuf e Santo Isaac Jogues — que foram martirizados entre 1642 e 1649 na região dos Grandes Lagos, durante as guerras entre as nações iroquesas e huronas. Os chamados Mártires Canadianos são considerados padroeiros do Canadá e sua memória é particularmente cara aos católicos tradicionalistas, que veem neles um exemplo de fidelidade heroica à fé em tempos de perseguição.
A proibição imposta pelo Cardeal Collins insere-se no contexto mais amplo das restrições à Missa Tradicional em latim estabelecidas pelo motu proprio Traditionis Custodes, publicado pelo Papa Francisco em julho de 2021. O documento determinou que os bispos diocesanos têm autoridade para regular a celebração da forma extraordinária do rito romano em suas jurisdições, e muitos prelados têm utilizado essa faculdade para restringir ou suprimir completamente tais celebrações.
Segundo relatos de participantes, a peregrinação deste ano contou com a presença de fiéis vindos de diversas partes do Canadá e também dos Estados Unidos, que se reuniram para rezar diante do local do martírio dos santos jesuítas. A organização do evento teria buscado uma propriedade alternativa nas proximidades do santuário, onde a Missa Tradicional pôde ser celebrada sem a interferência da autoridade diocesana, garantindo assim a continuidade da tradição de peregrinação que remonta a décadas.
Os organizadores manifestaram sua decepção com a decisão do Cardeal Collins, argumentando que a devoção aos Mártires Canadianos é um patrimônio espiritual de toda a Igreja no Canadá e que a celebração da Missa Tradicional no local seria uma expressão legítima dessa devoção. Eles destacaram ainda que a peregrinação tem caráter pacífico e devocional, não constituindo qualquer ato de protesto ou desafio à autoridade eclesiástica, mas sim um exercício de piedade popular enraizado na história católica do país.
A decisão do Arcebispo de Toronto não é um caso isolado. Nos últimos anos, diversos bispos canadenses têm adotado medidas restritivas semelhantes, seguindo as orientações da Santa Sé. Em algumas dioceses, a Missa Tradicional foi completamente suprimida, enquanto em outras foram impostas condições rigorosas para sua celebração, como a exigência de que os fiéis não utilizem igrejas paroquiais e que as celebrações ocorram apenas em capelas específicas designadas pela autoridade local.
O episódio de Midland reacende o debate sobre a liberdade religiosa dos fiéis ligados à liturgia tradicional e sobre a interpretação do Traditionis Custodes. Críticos das restrições argumentam que o motu proprio não pretendia suprimir a Missa Tradicional, mas apenas regular sua celebração, e que decisões como a do Cardeal Collins acabam por penalizar os fiéis que simplesmente desejam participar da liturgia que foi norma da Igreja por séculos.
A peregrinação aos Mártires Canadianos tem uma dimensão histórica e espiritual que transcende as disputas litúrgicas contemporâneas. Os mártires jesuítas deram suas vidas pela evangelização dos povos indígenas da América do Norte, e sua memória é celebrada não apenas pelos católicos tradicionalistas, mas por toda a Igreja canadense. A insistência dos fiéis em manter a peregrinação, mesmo diante da proibição, demonstra a vitalidade de uma devoção que resiste às adversidades e às mudanças de orientação pastoral.
Até o momento, não houve manifestação oficial da Arquidiocese de Toronto sobre a realização da peregrinação fora dos limites do santuário, nem sobre eventuais consequências para os organizadores ou participantes. A expectativa é de que o caso continue a gerar discussões sobre a relação entre a hierarquia e os fiéis tradicionalistas no Canadá, em um momento de particular tensão na vida da Igreja universal.
📎 Fonte original: Fsspx
📷 Foto: Hugo Martínez via Pexels — A vibrant religious procession in front of a historic church entrance, adorned with lush greenery and engaging participation.
