Alguns pensam que as questões doutrinárias suscitadas por mudanças de doutrina, ocorridas após o último concílio e concernentes ao que se deve crer ou fazer para ser salvo, pertencem mais a debates teológicos do que à preocupação que todo católico deveria ter de permanecer católico guardando a Fé.
A virtude da Fé é uma disposição estável dada por Deus na inteligência para permitir-lhe aderir firmemente à Revelação. Esta virtude, dada pelo batismo, é condição para a presença das outras duas virtudes teologais (Caridade e Esperança), sem as quais a Salvação é impossível. Se, ao entardecer da nossa vida, seremos julgados sobre a Caridade, esta implica necessariamente a Fé, pois todo amor pressupõe o conhecimento do amado. O amor sobrenatural de Deus em si mesmo e acima de tudo implica o conhecimento sobrenatural recebido da Revelação; esta nos ensina, notadamente, que Ele é Trindade, que seu Filho se fez homem para nos salvar por sua Paixão em virtude de sua Igreja, que prolonga no tempo e no espaço sua missão profética, sacerdotal e real.
Seguindo São Paulo, que afirma: "o homem é justificado, não pelas obras da Lei, mas pela fé em Cristo Jesus" (Gl 2,16), deve-se sustentar com Santo Tomás que a Fé é a primeira das virtudes teologais. Além da virtude da Fé, o ato correspondente a ela é necessário para a salvação de toda pessoa com uso da razão (adulta), e este ato deve ser, às vezes, também exterior. Com efeito, a profissão pública da Fé é um dos três vínculos de pertença ao corpo da Igreja recordado pelo catecismo de São Pio X: "A Igreja Católica é a sociedade ou reunião de todos os batizados que, vivendo sobre a terra, professam a mesma fé e a mesma lei de Jesus Cristo, participam dos mesmos sacramentos e obedecem aos pastores legítimos, principalmente ao Pontífice Romano." Assim, este mesmo catecismo precisa esta afirmação recordando que a heresia é um obstáculo à pertença à Igreja: "Os que se encontram fora da verdadeira Igreja são os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados.", antes de acrescentar que: "Os hereges são os batizados que recusam obstinadamente crer em alguma verdade revelada por Deus e ensinada como de fé pela Igreja Católica: por exemplo, os arianos, os nestorianos e as diversas seitas do protestantismo."
Este ato de Fé requerido para a salvação de todo adulto deve ser conforme à sua natureza, tal como admiravelmente resumido na oração do Ato de Fé: "Meu Deus, eu creio firmemente todas as verdades que Vós nos revelastes..." O objeto da Fé é o conjunto das verdades que constituem a Revelação, contidas na Tradição e na Escritura Sagrada, e todas as verdades que lhes estão necessariamente ligadas. Esta Revelação está encerrada com a morte do último apóstolo, São João, e ninguém pode acrescentar-lhe nada, nem mesmo o papa ou um concílio. Assim, a Igreja ensina infalivelmente: "O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que publicassem uma nova doutrina que o Espírito Santo lhes revelaria, mas para que guardassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, isto é, a revelação transmitida pelos apóstolos, com a assistência do Espírito Santo." (Vaticano I, Pastor Æternus). Não há, portanto, progresso objetivo do depósito da Fé que seja possível, pois nenhuma nova verdade pode ser acrescentada à Revelação. Em contrapartida, é possível que haja um progresso subjetivo consistindo em uma melhor compreensão da Revelação, em razão, notadamente, de sua explicitação possível pelo magistério eclesiástico: "A doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta como uma descoberta filosófica a ser progredida pela reflexão do homem, mas como um depósito divino confiado à Esposa de Cristo para que o guarde fielmente e o apresente infalivelmente. [...]" (Vaticano I, Dei Filius). Note-se que esta explicitação deve sempre fazer-se no mesmo sentido: "Por isso, 'o sentido dos dogmas sagrados que deve ser conservado perpetuamente é aquele que nossa Mãe a santa Igreja apresentou uma vez por todas e nunca é lícito afastar-se dele sob o pretexto ou em nome de uma compreensão mais aprofundada. 'Que cresçam e progridam ampla e intensamente, para cada um como para todos, para um só homem como para toda a Igreja, segundo o grau próprio de cada idade e de cada tempo, a inteligência, a ciência, a sabedoria, mas exclusivamente na sua ordem, na mesma crença, no mesmo sentido e no mesmo pensamento' (São Vicente de Lérins)." [...] E, portanto, "se alguém disser que é possível que os dogmas propostos pela Igreja recebam, às vezes, por causa do progresso da ciência, um sentido diferente daquele que a Igreja entendeu e ainda entende, seja anátema." (Vaticano I, Dei Filius). Pio XI, na sua encíclica Mortalium animos, recordá-lo-á evocando o magistério solene dos concílios ecumênicos: "Este uso extraordinário do magistério não introduz nenhuma novidade ao conjunto das verdades que estão contidas, ao menos implicitamente, no depósito da revelação confiado por Deus à Igreja; mas ou torna manifesto o que até então podia parecer obscuro a muitos, ou prescreve que se considere como de fé o que antes alguns punham em discussão."
"...e que Vós nos ensinais por vossa Igreja." A Revelação à qual podemos e devemos crer e professar pela virtude da Fé é aquela que recebemos da Igreja docente ou do seu magistério infalível ou constante: "Disse-lhes: 'Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado.'" (Mc 16,15-16). Ao contrário do que afirma a doutrina protestante, a Revelação não só não se reduz à Escritura (pois é completada pela Tradição), mas é transmitida aos batizados pelo papa e pelos bispos unidos a ele, a quem Cristo confiou de maneira exclusiva a missão de salvar as almas, notadamente ensinando-as: "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou" (Lc 10,16). A esta missão de ensino confiada por Cristo à hierarquia da sua Igreja corresponde uma assistência do Espírito Santo proporcionada ao grau de autoridade que ela quer empenhar no seu ensino, e que manifesta na maneira de se exprimir.
"...porque, sendo a Verdade mesma, não podeis nem enganar-Vos nem enganar-nos." É o motivo sobrenatural da Fé que lhe dá uma certeza mais elevada do que aquela a que pode chegar qualquer demonstração, a saber, Deus revelando-Se. Deus, sendo Aquele que é, não pode nem errar nem mentir-nos, pois tanto o erro como a malícia implicam defeito ou falta de ser, como é o caso de todo mal. Compreende-se então este ensinamento da Igreja explicado admiravelmente pelo Doutor Angélico: "...aquele que não adere, como a uma regra infalível e divina, ao ensinamento da Igreja que procede da Verdade primeira revelada nas Sagradas Escrituras, esse não tem o hábito da fé. Se admite verdades de fé, é de outro modo que pela fé. Como se alguém guarda em seu espírito uma conclusão sem conhecer o meio que serve para demonstrá-la, é claro que não tem a ciência dela, mas apenas uma opinião." Rejeitar conscientemente uma só verdade ensinada pela Igreja como revelada é, portanto, necessariamente...
