Durante o primeiro dia do encontro dedicado ao 10º aniversário da Amoris laetitia, no Vaticano, a irmã Helen Alford, dominicana e decana da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Pontifícia São Tomás de Aquino, em Roma, sugeriu que Jesus flertava com a mulher samaritana no poço, conforme o Evangelho de João. A teoria, baseada em reflexões do padre dominicano Michael Paluch, gerou polêmica ao tratar a conversa como um 'flerte', levantando questões sobre interpretação bíblica e a reverência devida à pessoa de Cristo.
No Vaticano, na quinta-feira, no primeiro dia do encontro dedicado ao 10º aniversário da Amoris laetitia, a irmã Helen Alford, dominicana de Santa Catarina de Sena e decana da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Pontifícia São Tomás de Aquino, em Roma, sugeriu que Jesus flertava com a mulher samaritana no poço, no Evangelho de João — uma teoria inventada por 'um dos meus irmãos dominicanos'. Baseando-se nas reflexões do padre dominicano Michael Paluch, a irmã Alford analisou o desenrolar da conversa. Ela descreveu essa abordagem inicial, de maneira 'um tanto provocativa', como um 'flerte': um homem e uma mulher conversam a sós, e seu diálogo permanece ambíguo até que Jesus a confronta com a verdade: 'Vai chamar teu marido... e volta aqui.'
Essa declaração suscita questões importantes sobre a interpretação bíblica, a linguagem teológica e a reverência devida à pessoa de Cristo. Em João 4:1–42, o encontro entre Jesus e a samaritana é uma das revelações mais profundas da misericórdia divina. Jesus cruza deliberadamente as fronteiras das convenções sociais para engajar uma mulher que se torna testemunha de sua identidade messiânica. A conversa é profundamente pessoal, mas a intimidade pessoal não deve ser confundida com atração romântica ou sexual. A vontade de Cristo de falar abertamente com a mulher revela a extraordinária liberdade do amor divino, que não explora a vulnerabilidade humana nem reduz o outro a um objeto de desejo.
Há certamente espaço para uma discussão erudita sobre as convenções literárias dos encontros bíblicos junto ao poço, especialmente as narrativas de noivado do Antigo Testamento envolvendo Isaac e Rebeca, Jacó e Raquel, e Moisés e Séfora. São João pode deliberadamente evocar essas tradições. No entanto, reconhecer uma alusão literária ao cortejo não é o mesmo que sugerir que Jesus mesmo flertava. Essa distinção é teologicamente importante: a linguagem do cortejo humano pode iluminar o simbolismo de Cristo como Esposo, sem implicar que seu encontro com a samaritana foi uma investida romântica.
A irmã Helen descreveu a troca inicial como uma forma deliberadamente provocativa de 'flerte', destacando a ambiguidade de uma conversa entre um homem e uma mulher sozinhos. Seu argumento mais amplo dizia respeito à evangelização, à vulnerabilidade humana e ao despertar progressivo da fé. O Papa Francisco, em uma catequese, interpretou o poço como um cenário bíblico associado ao noivado e descreveu Jesus simbolicamente como o Esposo que preenche o desejo mais profundo da humanidade por amor. A intuição teológica tem um lugar legítimo na erudição bíblica, enquanto a escolha dos termos pode obscurecer o significado espiritual profundo do encontro. A mulher samaritana não encontrou um homem buscando sua afeição. Ela encontrou o Deus vivo que conhecia sua história, reconhecia sua dignidade e lhe oferecia a água da vida eterna. Cristo não veio seduzir a samaritana. Ele veio revelar-lhe que ela já era conhecida, já era amada, e convidada à plenitude da vida divina.
📎 Fonte original: Lesalonbeige
