Antoni Gaudí i Cornet, nascido em Reus em 1852 e batizado no dia seguinte, foi criado em uma família profundamente religiosa. Formou-se arquiteto em Barcelona em 1878 e desde cedo desenvolveu uma linguagem artística extraordinariamente original, na qual natureza, simbolismo e fé se fundiam em obras-primas como a Sagrada Família (1883-1926), o Parque Güell (1900-1914) e a Casa Batlló (1904-1907). Em 1883, assumiu a direção da Sagrada Família, projeto que consumiu sua vida e, a partir de 1914, tornou-se sua dedicação exclusiva. Ele considerava a basílica um 'altar expiatório' a ser construído por meio de sacrifícios concretos, adotando um estilo de vida cada vez mais sóbrio e ascético, renunciando aos confortos mundanos para se dedicar plenamente ao trabalho e à oração.
O Papa Bento XVI, na homilia de 7 de novembro de 2010, afirmou: 'Cheio de devoção à Sagrada Família de Nazaré, devoção difundida entre o povo catalão por São José Manyanet, o gênio de Antoni Gaudí, inspirado pelo ardor de sua fé cristã, conseguiu erguer este santuário como um hino de louvor a Deus esculpido em pedra.' Na noite de 7 de junho de 1926, a caminho da Igreja de São Filipe Néri para encontrar seu confessor, o Rev. Agustí Mas i Folch, Gaudí foi atropelado por um bonde. Sua aparência humilde e a falta de identificação fizeram com que fosse confundido com um mendigo; a assistência médica chegou tarde demais, e Gaudí morreu três dias depois. Seu funeral contou com a presença de cerca de 30 mil pessoas, testemunho do imenso respeito e afeto que Barcelona nutria por ele.
Menos conhecida, mas igualmente fascinante, é sua profunda ligação com o canto gregoriano e o renascimento da música litúrgica na Catalunha. Guiado espiritualmente pelo Rev. Agustí Mas i Folch, Gaudí desenvolveu uma paixão profunda pela liturgia e pelo canto sacro, que por sua vez influenciou sua visão da Sagrada Família. Ele não foi um mero apoiador, mas um participante ativo no movimento de reforma musical que, no início do século XX, buscava restaurar a autenticidade da música na Igreja. Em seu funeral, em 12 de junho de 1926, o Orfeó Català, regido por Lluís Millet i Pagès, cantou a Missa pro Defunctis de Tomás Luis de Victoria, obra-prima da polifonia renascentista. Essa escolha foi deliberada, refletindo sua devoção compartilhada a uma linguagem musical pura e espiritual.
Em junho de 1916, Gaudí frequentou um curso avançado de canto gregoriano no Palau de la Música Catalana, ministrado por Gregori Maria Sunyol, monge da Abadia de Montserrat. A decisão não foi coincidência: marcou sua adesão ao Cecilianismo, movimento litúrgico do século XIX que buscava recuperar a sobriedade do canto medieval em oposição às tendências teatrais da música sacra contemporânea. Gaudí capturou sua filosofia artística e espiritual em uma única frase: 'A originalidade consiste em retornar à origem; assim, original é aquilo que retorna à simplicidade das primeiras soluções.' Aplicado à música, isso significava redescobrir a sacralidade primordial do canto gregoriano e da polifonia renascentista, despojando-os de todo espetáculo superficial e restaurando sua verdadeira função espiritual.
Essa abordagem harmonizava-se perfeitamente com a reforma iniciada pelo Papa São Pio X, que emitiu o Motu proprio Tra le sollecitudini em 22 de novembro de 1903, promovendo uma profunda reforma no campo da música sacra para restaurar a grande tradição da Igreja e combater a influência da música profana, especialmente da ópera ligeira. Na Catalunha, esse apelo encontrou ressonância através de figuras como o musicólogo Felip Pedrell, que entre 1898 e 1913 publicou as obras completas de Victoria, e Lluís Millet, que, a partir do Oratório de Barcelona, promoveu as composições de Palestrina — especialmente a Missa Papæ Marcelli — juntamente com o Missa de Angelis gregoriano e hinos populares em catalão.
Gaudí atribuía grande importância à participação do povo na liturgia. Escreveu: 'O povo canta — se não o hino patriótico, então o hino revolucionário; se não a canção religiosa, então a canção blasfema e obscena. Portanto, é necessário que o povo participe dos cantos da Igreja.' E ainda: 'O Evangelho e São Paulo dizem que o sentido da audição é o sentido da fé.' Assim, concebeu a Sagrada Família como um espaço expressamente projetado para o canto coral: coros colocados em diferentes locais, criando uma interação harmônica de vozes sem o domínio do órgão. Era, em essência, arquitetura musical — a pedra amplificando a oração coletiva dos fiéis. Essa visão foi parcialmente realizada em 18 de maio de 2012, quando 615 cantores, dispostos segundo os próprios planos de Gaudí — crianças no presbitério, mulheres e homens nas laterais — transformaram a basílica em um instrumento musical vivo, com o canto gregoriano como voz privilegiada.
Antoni Gaudí não foi apenas um arquiteto visionário, mas também um pensador litúrgico e reformador musical, unindo tradição e inovação. Seu vínculo com o canto gregoriano e com os protagonistas do renascimento musical catalão revela um projeto maior: uma visão de harmonia entre pedra e fé, arquitetura e música, espaço sagrado e voz humana.
