No primeiro artigo, intitulado 'O Episcopado na Encruzilhada', o autor examina o postulado que se tornou central nos meios Ecclesia Dei, segundo o qual o bispo receberia, por sua própria sagração, uma orientação essencial para o governo da Igreja. Essa tese leva seus defensores a considerar que uma consagração episcopal realizada sem mandato pontifício constituiria necessariamente um atentado contra a unidade da Igreja.
O padre Gleize empreende a verificação desse pressuposto à luz da teologia e do Magistério. Apoiando-se em Dom Gréa, no cardeal Journet, no cardeal Billot e no padre Victor-Alain Berto, ele mostra que a distinção tradicional entre poder de ordem e poder de jurisdição permanece fundamental. Uma fórmula do padre Berto resume toda a argumentação: 'não é certamente nem exigência nem mesmo conveniência que quem recebeu a sagração receba uma jurisdição'.
Esse estudo evidencia as fraquezas doutrinais das objeções dirigidas às sagrações. O segundo artigo, intitulado 'Qual Ruptura?', é dedicado à recente obra do padre Albert Jaquemin sobre Dom Lefebvre e as sagrações de 1988. O interesse dessa recensão está em revelar o verdadeiro objeto do conflito entre Roma e Écône.
Como o próprio padre Jaquemin reconhece, 'o conflito não diz respeito principalmente a questões disciplinares ou litúrgicas, mas ao estatuto teológico da Tradição'. A partir dessa constatação, o padre Gleize examina duas concepções opostas da Tradição: uma, herdada do Vaticano I, que vê no Magistério o guardião fiel de um depósito revelado imutável; a outra, oriunda da nova eclesiologia pós-conciliar, que apresenta a Tradição como uma realidade em constante evolução.
O autor mostra assim que a questão das sagrações não pode ser compreendida independentemente dessa oposição fundamental. Ele conclui defendendo a ação de Dom Lefebvre como um ato de fidelidade à 'doutrina católica eterna e ao Magistério de sempre'.
Além das polêmicas do momento, este número do Courrier de Rome oferece uma reflexão de fundo e permite compreender melhor os princípios doutrinais invocados pela Fraternidade São Pio X e as razões profundas que a levaram a anunciar novas consagrações episcopais.
