No comentário ao capítulo 19 do Evangelho de São João, versículos 11 a 37, o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, oferece uma meditação rica em simbolismo sobre o momento em que o soldado transpassa o lado de Cristo com a lança. O texto, extraído da obra 'Super Ioannem' (cap. 19, l. 5), foi publicado pelo portal Radio Spada e nos convida a contemplar as profundezas do amor divino revelado na Paixão.
Segundo São Tomás, cada um dos dois soldados aproximou-se de um dos ladrões para lhes quebrar as pernas, mas ao chegarem a Jesus, viram que já estava morto e não lhe quebraram os ossos. No entanto, para certificar-se da morte, um dos soldados abriu-lhe o lado com a lança. O evangelista usa o termo 'abriu', e não 'feriu', porque através desse lado nos é aberta a porta da vida eterna, como está escrito no Apocalipse: 'Depois disso, vi uma porta aberta no céu' (Ap 4,1).
O Aquinate estabelece uma conexão tipológica com a Arca de Noé: a porta no lado da arca, pela qual entraram os animais que não pereceriam no dilúvio (Gn 7), prefigura o lado aberto de Cristo. Esta porta é causa de salvação, pois dela saíram imediatamente sangue e água. O sangue e a água simbolizam a purificação completa que obtemos pela paixão de Cristo: dos pecados pelo sangue, preço da nossa redenção, e das manchas pela água, lavacro da regeneração.
Citando a Primeira Carta de São Pedro (1,18-19), São Tomás recorda que não fomos resgatados com ouro ou prata, mas com o precioso sangue de Cristo, cordeiro imaculado. Quanto à água, ele evoca Ezequiel (36,25): 'Derramarei sobre vós água pura e sereis purificados de todas as vossas imundícies', e Zacarias (13,1): 'Naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para lavar o pecado e a impureza'.
O Doutor Angélico aplica esses elementos aos sacramentos: a água refere-se ao Batismo, e o sangue, à Eucaristia. Ou, alternativamente, ambos pertencem à Eucaristia, pois no sacramento eucarístico a água é misturada ao vinho, embora não pertença à substância do sacramento. Esta interpretação se harmoniza com a figura de Adão: assim como do lado de Cristo adormecido na cruz fluíram sangue e água, com os quais a Igreja é consagrada, do lado de Adão adormecido foi formada a mulher, que prefigurava a própria Igreja.
O comentário de São Tomás nos convida a contemplar o Sagrado Coração de Jesus como fonte inesgotável de graça e misericórdia, que nos abre as portas do céu e nos purifica de todo pecado. A devoção ao Sagrado Coração, tão cara à tradição católica, encontra neste texto uma sólida base teológica e escriturística, reafirmando a centralidade da Paixão de Cristo na obra da redenção.
📎 Fonte original: Radio Spada
