Há uma misteriosa conexão entre as três festas da Trindade, Corpus Christi e o Sagrado Coração. O objetivo do Espírito Santo em todas elas é iniciar-nos cada vez mais no conhecimento de Deus pela fé, preparando-nos para a visão face a face no céu. Já vimos como Deus, sendo-nos dado a conhecer pela primeira festa em si mesmo, manifesta-se a nós pela segunda em suas obras externas — pois a santa Eucaristia é o memorial aqui na terra no qual Ele reuniu, com toda a perfeição possível, todas as suas obras maravilhosas. Mas por que lei podemos passar tão rápida e abruptamente de uma festa que trata diretamente de Deus para outra que celebra suas obras feitas para nós? E como surgiu o pensamento divino, ou seja, a Sabedoria eterna, do repouso infinito da Trindade beatífica para a atividade externa de um amor por nós, pobres criaturas, que produziu o que chamamos de Mistérios da nossa Redenção? O Coração do Homem-Deus é a solução dessas dificuldades; responde a todas essas perguntas e explica todo o plano divino.
Sabíamos que a felicidade soberana que está em Deus, a vida eterna comunicada do Pai ao Filho e destes ao Espírito Santo em luz e amor, seria dada pela vontade dessas três Pessoas Divinas às criaturas — não apenas às puramente espirituais, mas também àquelas cuja natureza é a união de espírito e matéria, isto é, ao homem. Nós somos dessa natureza inferior; e um penhor dessa vida eterna nos foi dado no Sacramento da Eucaristia. É pela Eucaristia que o homem, já feito participante da natureza divina pela graça do Espírito santificador, é unido ao Verbo divino e tornado verdadeiro membro deste Filho Unigênito do Pai. Sim, embora ainda não tenha aparecido o que seremos, diz São João, já somos filhos de Deus; sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, pois somos chamados a viver, como o próprio Verbo, na sociedade de seu Pai eterno, para sempre.
Mas o amor infinito da sagrada Trindade, que assim nos chamou, frágeis criaturas, à participação em sua própria vida bem-aventurada, realizaria este desígnio misericordioso com a ajuda e os meios de outro amor, um amor mais parecido com o que nós mesmos podemos sentir: o amor criado de uma alma humana, evidenciado pelas batidas de um Coração de carne como o nosso. O Anjo do grande Conselho, enviado para dar a conhecer ao mundo os desígnios misericordiosos do Ancião de Dias, tomou para si, para cumprir sua missão divina, uma forma humana criada; isso permitiria que os homens vissem com seus olhos, e até tocassem com suas mãos, o Verbo da vida, aquela vida eterna que estava com o Pai, mas apareceu até a nós. Esta natureza humana, que o Filho de Deus uniu pessoalmente a Si desde o ventre da Virgem Mãe, foi o dócil instrumento do amor infinito, mas não foi absorvida ou perdida na divindade; reteve sua própria substância, suas faculdades especiais, sua vontade distinta, que governava, sob a influência do Verbo divino, os atos e movimentos de sua Santíssima Alma e adorável Corpo.
Desde o primeiro instante de sua existência, a Alma humana de Cristo foi inundada, mais diretamente do que qualquer outra criatura, com aquela verdadeira luz do Verbo que ilumina todo homem que vem a este mundo; gozou da visão face a face da essência divina e, portanto, apreendeu num só olhar a beleza absoluta do Ser soberano e a sabedoria do decreto divino que chamava seres finitos à participação da bem-aventurança infinita. Compreendeu sua missão sublime e concebeu um imenso amor por Deus e pelos homens. Esse amor começou simultaneamente com a vida e preencheu não apenas sua alma, mas também marcou, à sua maneira, o Corpo — o Corpo formado da substância da Virgem Mãe pela operação do Espírito Santo. O efeito desse amor refletiu-se, consequentemente, em seu Coração de verdadeira carne humana; colocou em movimento aquelas batidas que fizeram circular o Sangue da redenção em suas veias sagradas. Pois não era com Ele como com os outros homens, cujas pulsações do coração são, a princípio, consequência apenas da força vital presente no corpo humano; e, mais tarde, quando a idade desperta a razão para a ação, as ideias assim produzidas causam impressões físicas que ora aceleram, ora retardam as pulsações de nossos corações. Com o Homem-Deus não era assim: seu Coração, desde o primeiro momento de sua vida, respondia, isto é, pulsava, à lei do amor de sua alma, cujo poder de agir sobre seu Coração humano era tão incessante e intenso quanto o poder da vitalidade orgânica — um amor tão ardente no primeiro instante da Encarnação quanto é nesta mesma hora no céu. Pois o amor humano que o Verbo Encarnado tinha, resultante de seu conhecimento intelectual de Deus e das criaturas, era tão perfeito quanto esse conhecimento e, portanto, incapaz de todo progresso; embora, sendo nosso Irmão e modelo em todas as coisas, dia a dia manifestasse mais claramente a nós a sensibilidade exquisita de seu divino Coração.
Na época da vinda de Jesus a esta terra, o homem havia esquecido como amar, pois havia esquecido o que era a verdadeira beleza. Seu coração de carne parecia-lhe uma espécie de desculpa para seu falso amor de falsos bens: seu coração era apenas uma saída pela qual sua alma podia desviar-se das coisas celestiais para as cascas da terra, desperdiçando ali seu poder e sua substância. A este mundo material, que a alma do homem deveria fazer servir à glória de seu Criador — a este mundo, que, por uma triste inversão, mantinha a alma do homem escrava de seus sentidos e paixões — o Espírito Santo enviou um poder maravilhoso que, como uma alavanca irresistível, recolocaria o mundo em sua posição correta: era o Sagrado Coração de Jesus; um Coração de carne, como o de outros seres humanos, de cujas pulsações criadas subiria ao Pai eterno uma expressão de amor que seria uma homenagem infinitamente agradável à Majestade infinita, porque naquele amor daquele Coração humano havia a dignidade de sua união com o Verbo. É uma harpa de melodia suavíssima, que vibra incessantemente sob o toque do Espírito de Amor; reúne em sua própria música a música de toda a criação, cujas imperfeições corrige, suprindo suas deficiências, afinando todas as vozes discordantes na unidade, e assim oferece à gloriosa Trindade um hino de louvor perfeito.
📎 Fonte original: OnePeterFive
