O que aconteceu? Como este país decaiu? Como, na vida de uma só pessoa, a América desceu de ser uma nação que, se não católica, ao menos observava a lei natural na maioria dos casos, possuía uma cultura e modo de vida sãos e decentes, e uma aversão ao socialismo e ao comunismo? Há várias razões para isso, mas a principal reside em seus próprios princípios. Tudo remonta ao Renascimento.
O espírito do humanismo renascentista sustentava que o homem não estava corrompido pelo pecado original e que, deixado à sua natureza e às suas luzes intelectuais, poderia ser virtuoso e sábio, criando um mundo perfeito sem religião. Por essa razão, era comum em pinturas ver figuras nuas ou seminuas. Isso era inédito na Idade Média, mas frequente na escultura antiga. A roupa, deve-se lembrar, veio como consequência do pecado original. Tínhamos vergonha de estar nus porque não estávamos mais no controle completo de nossas paixões. O Renascimento, no entanto, queria retratar “o homem como homem”, isto é, o homem considerado sem pecado original, em sua natureza pura, sem necessidade de redenção ou graça, mas capaz de triunfar por si mesmo.
Dessas atitudes do humanismo renascentista surgiu, ao longo dos séculos, especialmente nos países protestantes, um movimento conhecido como incredulidade. Manifestou-se sob a forma de racionalismo, deísmo e até ateísmo. Era radicalmente oposto ao cristianismo em geral, mas especialmente ao catolicismo romano, que caracterizava como obscurantismo. O racionalismo é o sistema que rejeita tudo o que não pode ser provado pela razão humana. Consequentemente, mistérios sobrenaturais como a Santíssima Trindade, a Encarnação, o pecado original, etc., eram rejeitados de imediato. O deísmo sustenta que um ser supremo existe, que fez o universo, mas não se importa com ele. Não estabelece leis para a humanidade e não exerce governo ou providência sobre os homens. Nada lhe devemos, exceto honra. O ateísmo, é claro, negava totalmente a existência de Deus, bem como a imortalidade da alma, a vida futura, o céu e o inferno.
Esses movimentos ganharam força no século XVII e tornaram-se extremamente populares entre as classes alta e média no século XVIII. Surgiram “filósofos” nesses dois séculos que sistematizaram e desenvolveram essas novas ideias. Entre eles estavam John Locke, David Hume, Immanuel Kant e outros. O deísmo e o ateísmo floresceram especialmente na Inglaterra. Os principais articuladores da Revolução Americana eram maçons e deístas. Jefferson era tido como ateu. Todos eles eram grandes admiradores de John Locke. Locke ensinava que os seres humanos nascem com liberdade ilimitada, exceto no que os vincula pela lei natural. A teoria do governo de Locke era o contrato social. Ele diz que a autoridade política é algo criado pelo povo, que renuncia aos seus direitos de se autogovernar em favor de um corpo legislativo que governa por eles. Fazem isso para melhor preservar suas próprias liberdades. A maioria governa. Dessa teoria fluem as ideias de soberania do povo e direito de revolução, ou seja, que o povo governa e tem o direito de se levantar, mesmo pela violência, contra o que acredita ser um governo tirânico, e dissolver suas conexões com ele.
A filosofia política católica difere grandemente de todas essas ideias. Ensina, com São Paulo, que toda autoridade vem de Deus. Ensina que o Estado não é meramente uma criação do povo, efeito de algum contrato, mas algo que pertence à própria natureza do homem. Consequentemente, a autoridade política não deriva do consentimento dos governados, nem o povo é soberano. Pelo contrário, o governante ou governo é soberano porque está exercendo o poder de Deus para governar. Na filosofia católica, cabe ao povo determinar como será governado (por exemplo, estabelecer uma constituição) e quem os governará (por exemplo, por eleição, monarquia hereditária, etc.). Tampouco as pessoas nascem com liberdade ilimitada. Nossa liberdade é limitada não só pela lei natural, como Locke admitia, mas também pela lei revelada de Deus, isto é, pelas leis de Cristo Rei, dadas a conhecer por Sua Igreja na terra, a Igreja Católica Romana. As pessoas, além disso, nascem sujeitas a seus pais e às leis de sua nação. Tampouco são livres para se levantar contra seus governantes. Uma multidão de revolucionários não tem legitimidade alguma. Isso é submeter o governo ao juízo privado dos indivíduos. Não seria diferente de uma multidão linchando uma pessoa que considera culpada. Nem o governo é pelo consentimento dos governados, ou seja, não é verdade dizer que uma lei tem validade porque o povo a aprova. Ela tem validade na medida em que os legisladores, usando a autoridade de Deus, prescrevem algo que está de acordo com o bem comum e com a lei natural e revelada.
Os problemas fundamentais da América. A América nasceu no século XVIII, quando essas ideias de Locke estavam em pleno vigor. O erro central é que a América foi concebida com base na criação de um Estado fundamentado na pura natureza e na razão. Implícita nessa ideia estava a negação do reinado de Cristo Rei, a negação da revelação sobrenatural e, com ela, a negação do pecado original e seus efeitos. Essa filosofia deixou a América por conta própria, isto é, sem o Salvador, sem revelação sobrenatural, sem a Igreja Católica e carregada dos efeitos do pecado original. Era, como os Pais Fundadores a chamavam, o Império da Razão. Era a expressão política perfeita do humanismo renascentista: um Estado sem Deus e sem revelação, portanto sem redenção e sem graça. Era um estado de pura natureza e governado apenas pela razão.
É ensinamento da Igreja Católica que o homem, sem a graça, não pode perseverar por muito tempo em todas as virtudes, mas acabará caindo em pecado mortal. Nem pode voltar do pecado mortal senão pela graça de Deus. A história provou que os seres humanos, privados de revelação e graça, caíram nas formas mais grotescas de barbárie e selvageria. Também caíram em grosseira ignorância sobre Deus e a moralidade, bem como em superstições insanas e ridículas. É uma raça caída. Todos os esquerdistas da Europa consideravam a jovem república americana como a queridinha de um novo mundo político. Foi por essa razão que os esquerdistas franceses, mais tarde revolucionários, acorreram ao exército de Washington na década de 1770, a tal ponto que ele teve que mandar muitos de volta. Um exemplo primário foi Lafayette, ateu e maçom.
A América não tem defesa. A cultura americana geralmente observava a lei natural porque seus habitantes a observavam. Não havia nada em sua constituição, no entanto, que exigisse que as leis estivessem em conformidade com a lei natural. Tampouco definia o que era a lei natural. Nem Deus ou Jesus Cristo eram sequer mencionados nela. Quando as influências perversas dos anos 1960 invadiram este país, portanto, a América não tinha sistema imunológico para resistir a elas. Pois quem pode dizer o que é a lei natural? Os transgêneros diriam que são naturalmente inclinados a mudar de gênero. O mesmo pode ser dito daqueles que contraem casamentos do mesmo sexo. Se a maioria do “povo soberano” pensa que o transgenerismo e o casamento entre pessoas do mesmo sexo são naturais, então essas aberrações se tornam lei. Se a América tivesse sido fundada sobre as leis de Cristo Rei, tal coisa jamais teria sido possível. A América não tem bússola moral, e agora está desviada e perdida numa floresta de absurdos não naturais.
O que também contribui para a decadência cultural da América são suas três queridas “liberdades”: liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade religiosa. Como já disse em boletim anterior, essas chamadas liberdades são condenadas pela Igreja Católica. No que diz respeito à imprensa e...
📎 Fonte original: Inveritateblog
