A leitura da Encíclica do Papa Pio XI, proposta para esta quarta-feira da Oitava do Sagrado Coração, aborda uma questão teológica profunda: como podem nossas práticas expiatórias consolar a Cristo, que já reina glorioso no Céu? O Pontífice responde com as palavras de Santo Agostinho: "Dá-me um amante, e ele sentirá a verdade do que digo." Toda alma inflamada de amor a Deus, ao meditar no passado, contempla Cristo sofrendo pela humanidade, aflito por dores, angústias e opróbrios, ferido por nossos pecados, por cujas chagas fomos curados. As almas devotas compreendem que os pecados de todos os tempos foram a verdadeira causa da condenação do Filho de Deus, e que os pecados atuais podem, de certo modo, renovar a causa da mesma morte, com seus sofrimentos e agonias, pois todo pecado renova a Paixão do Senhor, conforme as Escrituras: "Crucificam de novo o Filho de Deus e o expõem ao vitupério."
O Papa Pio XI prossegue explicando que, na agonia do Jardim, a alma de Cristo ficou triste até a morte diante dos nossos pecados futuros, previstos por Ele. No entanto, não há dúvida de que Ele foi consolado, de algum modo, pela previsão de nossos atos de reparação, quando o anjo do céu Lhe apareceu para confortá-Lo nas dores do Seu Coração, tão abatido pelo cansaço e pela tristeza. Assim, ainda hoje, podemos e devemos consolar, de maneira mística mas real, o Sacratíssimo Coração, continuamente ferido pelos pecados dos homens ingratos. É nesse sentido que a sagrada liturgia interpreta a queixa do Salmista: "O opróbrio me partiu o coração; fiquei cheio de tristeza; esperei quem se compadecesse de mim, mas não houve ninguém; e quem me consolasse, não encontrei."
A estas considerações, acrescenta-se que a paixão expiatória de Cristo se renova e, de certo modo, continua no Seu Corpo Místico, que é a Igreja. Santo Agostinho afirma: "Cristo sofreu tudo o que devia sofrer; nada falta ao número de seus sofrimentos; portanto, seus sofrimentos estão completos n'Ele como Cabeça; mas ainda restam os sofrimentos de Cristo a serem suportados no corpo." O próprio Senhor Jesus revelou esta verdade quando disse a Saulo, que perseguia os discípulos: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues." Com estas palavras, afirmou claramente que as perseguições à Igreja são dirigidas contra a Cabeça da Igreja. Portanto, é justo que Cristo, ainda sofrendo em Seu Corpo Místico, deseje que sejamos participantes da Sua obra de expiação, assim como nossa própria necessidade nos move a desejar e buscar a união com Ele. Pois, sendo nós o corpo de Cristo e membros da Sua carne e dos Seus ossos, tudo o que a Cabeça sofre, os membros do corpo devem sofrer com Ela.
O Evangelho segundo São João (19,31-37) narra que, sendo o dia da Preparação, os judeus pediram a Pilatos que quebrassem as pernas dos crucificados e os tirassem da cruz, para que os corpos não permanecessem no sábado, que era um grande dia. A homilia de São Pedro Canísio exorta a meditar sobre o fato de que Aquele que é Deus sobre todas as coisas suportou, com inefável caridade, uma morte amarguíssima na Cruz, na angústia excessiva do Seu Coração, enquanto todo o mundo O escarnecia. E isto Ele fez por ti, que és um pobre verme! Medita na generosidade sem limites que Cristo, o Preservador, manifestou a todo o Seu povo. Pois, certa vez, em pé no meio do povo, clamou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba", mostrando quão pronto estava para acolher a todos e ajudá-los em todas as necessidades. Considera como Ele te dá livremente a beber o precioso sangue do Seu Coração, visto que o Seu lado sagrado foi aberto, de onde derramou todo o sangue que ainda restava no Seu corpo.
Para não ser totalmente ingrato, frequentemente trago diante dos olhos aquelas fontes perenes de dons e de todos os bens, pois delas ressalta aquela promessa dulcíssima: "Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador e direis naquele dia: Louvai ao Senhor." Para lá fugirei, para aqueles três vezes benditos buracos na rocha que jamais podem ser demolidos; ali construirei para mim um ninho durável, não tendo nada melhor, em todas as tristezas e perigos que me sobrevêm, do que pensar nas chagas do Senhor. Portanto, em toda tribulação, foge rapidamente para o amável Coração de Cristo e recorda a Sua bondade e caridade, colocando-as em contraste com as tuas misérias.
📎 Fonte original: Onepeterfive
