O "cardeal" Gerhard Müller lançou um alerta contundente durante uma conferência realizada no dia 17 de junho de 2026, na Câmara dos Deputados da Itália, em Roma. O prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé afirmou que a Europa está caminhando para o "suicídio" ao renunciar às suas raízes cristãs, que deram origem à sua civilização. A intervenção ocorreu no encontro intitulado "Eurogender Diktat: Christian Roots, Religious & Educational Freedom at Risk in the EU" ("A ditadura do eurogénero: raízes cristãs e liberdade religiosa e educativa em perigo na UE"), organizado pela associação católica I RadicaTi dal diritto naturale alla legge e promovido pelo deputado Massimo Milani, do partido Fratelli d’Italia, liderado pela primeira-ministra Giorgia Meloni.
O encontro teve como objetivo analisar as consequências de políticas impulsionadas por Bruxelas em áreas como família, educação, liberdade religiosa e liberdade de expressão. Os organizadores denunciaram que iniciativas europeias, apresentadas sob o pretexto de combate à discriminação, estão favorecendo uma imposição ideológica crescente em questões de gênero, sexualidade e antropologia humana. Segundo eles, a defesa das raízes cristãs e da visão tradicional da família é frequentemente tratada como obstáculo ao progresso, enquanto correntes ideológicas recebem proteção institucional privilegiada.
O "cardeal" Müller desenvolveu uma ampla reflexão sobre a crise espiritual, cultural e política do continente. Ele recordou que os pais fundadores do projeto europeu — como Robert Schuman, Alcide De Gasperi e Konrad Adenauer — nunca conceberam a Europa como mera estrutura econômica ou administrativa. Para Müller, a unidade europeia surgiu de uma visão compartilhada da pessoa humana, profundamente marcada pelo cristianismo, que permitiu o desenvolvimento de conceitos fundamentais como dignidade humana, liberdade de consciência, igualdade perante a lei e direitos fundamentais. "Sobre este fundamento se sustenta hoje a União Europeia", afirmou, advertindo que uma Europa desvinculada do Evangelho corre o risco de "entregar-se suicidamente à sua própria queda".
Müller identificou a desintegração da família e a confusão sobre a identidade humana como sintomas principais da crise cultural europeia. Segundo ele, o continente vive um processo de questionamento das realidades antropológicas mais básicas, impulsionado pela ideologia de gênero e por correntes transumanistas que buscam redefinir a natureza humana. O prefeito emérito denunciou uma transformação cultural inspirada em uma lógica "jacobina", contrária à família natural e à identidade pessoal, e acusou instituições europeias de promover uma forma de "totalitarismo de gênero" que ameaça a liberdade de pensamento e de educação.
Um dos conceitos centrais de sua intervenção foi o "despotismo suave", termo cunhado pelo pensador francês Alexis de Tocqueville. Müller sustentou que as democracias ocidentais não restringem mais as liberdades por meio de perseguição aberta ou violência estatal, mas através de mecanismos sutis: regulamentações administrativas, burocracias extensas e pressões culturais que uniformizam o pensamento. Ele criticou regulamentações europeias sobre controle de conteúdos digitais e combate à desinformação, afirmando que governos e instituições não devem se atribuir o poder de determinar o que é verdadeiro ou falso, mas sim buscar o bem comum respeitando a liberdade dos cidadãos.
Müller denunciou a influência de organismos internacionais e elites globais, como o Fórum Econômico Mundial e o Clube de Roma, que, segundo ele, promovem uma visão tecnocrática e secularizada da sociedade. O cardeal alertou que a Europa corre o risco de se tornar "um campo de experimentação para a ideologia woke ateia", onde a religião é progressivamente expulsa do espaço público e reduzida à esfera privada. Ele também expressou preocupação com a crise demográfica e as consequências culturais das políticas migratórias, afirmando que governos ignoraram os desafios de integração e coesão social.
A inteligência artificial também foi destaque na conferência. Müller vinculou o debate às reflexões de Bento XVI e Leão XIV sobre fé, razão e progresso tecnológico, citando a conferência de Ratisbona e a encíclica Magnifica humanitas. Ele defendeu que a inovação tecnológica deve permanecer submetida a critérios éticos objetivos e ao respeito da dignidade humana. "Não devemos nos tornar cães dos amos da inteligência artificial", afirmou, destacando que o grande desafio do século XXI é evitar que a humanidade se subordine às ferramentas que criou.
A intervenção concluiu com um chamado à recuperação da confiança na herança cristã que moldou a Europa. Müller afirmou que os problemas demográficos, culturais, tecnológicos e políticos do continente não serão resolvidos com mais burocracia ou novos experimentos ideológicos, mas redescobrindo os princípios morais que possibilitaram a civilização europeia. Para ele, a verdadeira disjuntiva que a Europa enfrenta é cultural e espiritual: decidir se quer construir seu futuro sobre a concepção cristã da pessoa humana ou continuar avançando para uma sociedade desvinculada das raízes que lhe deram coesão, identidade e sentido.
📎 Fonte original: Infovaticana
