Embora a sociedade secular moderna se destaque por seu escasso conhecimento da história medieval, a cultura popular conseguiu manter viva a memória das Cruzadas. Mesmo entre aqueles com pouco interesse nos eventos, crenças e ideais do mundo medieval, as Cruzadas ainda são bem conhecidas e amplamente compreendidas – ou melhor, grosseiramente mal compreendidas – como um episódio deploravelmente violento em que ocidentais brutais foram, sem qualquer provocação, assassinar e saquear muçulmanos pacíficos e sofisticados, lançando as bases para padrões de opressão ultrajante que se repetiriam ao longo da história.
O tema foi retomado até mesmo por um importante político americano, não exatamente famoso por sua integridade moral, em um discurso proferido em 2001 na Universidade de Georgetown. 'Quando os soldados cristãos [da Primeira Cruzada] conquistaram Jerusalém', explicou Clinton, 'massacraram indiscriminadamente os habitantes locais até que os cavaleiros foram forçados, segundo as descrições da época, a caminhar com o sangue escorrendo até os joelhos'. Na verdade, o ex-presidente se mostra bastante moderado, pois outras versões do massacre indicam que o sangue alcançou os joelhos dos cavalos, ou até mesmo as rédeas! Comentadores mais cautelosos afirmam que o rio de sangue chegava apenas aos tornozelos. Podemos talvez vislumbrar aqui uma lacuna educacional não apenas no âmbito histórico, mas também matemático: como um estudioso demonstrou, a contragosto, através de cálculos grotescos, as versões sensacionalistas desse evento são claramente impossíveis, e os relatos em que se baseiam 'nunca foram pensados para serem levados a sério. As pessoas da Idade Média sabiam que algo assim era impossível. As pessoas modernas, infelizmente, muitas vezes não sabem'.
Nunca saberemos exatamente o que aconteceu no Monte do Templo de Jerusalém no ano de 1099, e a modernidade faria bem em remediar as atrocidades atuais em vez de proclamar com hipocrisia um evento que, infelizmente, é apenas um exemplo dos inúmeros excessos bélicos que enchem as páginas da história mundial. Há, no entanto, algo fundamental a aprender com isso, e não se encontra nas polêmicas modernas, mas nas palavras medievais escritas por Raimundo de Aguilers, um eclesiástico que acompanhou o Conde de Toulouse na Primeira Cruzada. Seu relato do massacre do Monte do Templo inclui a seguinte frase: 'Sed tantum sufficiat, quod in templo et porticu Salomonis equitabatur in sanguine ad genua, et usque ad frenos equorum' (Basta dizer que no templo e no pórtico de Salomão cavalgavam no sangue até os joelhos e até as rédeas dos cavalos).
Como notaram em uma nota de rodapé os editores de uma edição de 1969 deste texto, a frase de Raimundo é idêntica a uma frase encontrada na versão Vulgata do capítulo 14 do Apocalipse. Este capítulo começa com uma visão do Cordeiro divino no monte Sião e conclui com uma visão da colheita e da vindima da terra: 'E outro anjo saiu do templo, clamando em grande voz ao que estava sentado sobre a nuvem: Lança a tua foice e ceifa, porque já é tempo de ceifar, porque a seara da terra está madura. E aquele que estava sentado sobre a nuvem lançou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada'. Um anjo também colheu os 'cachos da videira da terra' e os lançou no 'grande lagar da ira de Deus,... e do lagar saiu sangue, até as rédeas dos cavalos [usque ad frenos equorum]'.
Raimundo não estava tentando descrever a cena com objetividade científica; estava, de modo tipicamente medieval, entrelaçando o literal e o místico, o histórico e o bíblico, o visível e o invisível. Estava, em outras palavras, fundindo as verdades do céu na história em curso na terra. Interpretar as palavras de Raimundo como fatos precisos, ou mesmo como fatos exagerados, significa cometer um erro que nós, modernos, cometemos com tanta facilidade ao refletir sobre os eventos, costumes e escritos da Idade Média. A pesquisa histórica no sentido moderno do termo era praticamente inexistente na Era da Fé; a historiografia medieval era sobretudo um exercício para fazer com que as ações humanas revelassem os desígnios providenciais de Deus Todo-Poderoso. Além disso, como observou a historiadora Deborah Deliyannis, 'não existia a figura do historiador de profissão em nenhum momento da Idade Média'; crônicas e obras similares eram compostas por estudiosos ou eclesiásticos que escreviam 'exegese, poemas, panegíricos, textos científicos ou computacionais e documentos legais, além de obras que comemoravam o passado'.
Quando Raimundo invoca a imagem bíblica do sangue 'usque ad frenos equorum', faz o que os cristãos medievais faziam contínua e instintivamente: espiritualizar o que observavam e experimentavam, recorrendo ao vasto tesouro da Igreja em termos de teologia, sacramentalidade e literatura sacra. É difícil dizer com precisão como Raimundo buscava espiritualizar o massacre do Monte do Templo; talvez interpretou a violência como uma terrível purificação, ou talvez a viu sob uma luz apocalíptica. De qualquer forma, tais detalhes não nos interessam no momento; o que é importante para a presente discussão é que sua alusão à violência mística do Livro do Apocalipse nos oferece uma visão geral do grande projeto que hoje chamamos de Cruzadas, que não diziam respeito fundamentalmente aos meros 'fatos' da guerra, conquista, aventura ou riqueza. No centro das Cruzadas, que emergiam da profunda lógica da vida medieval, estava uma viagem terrena cujo benefício era espiritual e cujo destino era Deus.
É um tanto irônico que o termo 'cruzada' seja tão amplamente reconhecido na sociedade moderna, porque se alguém perguntasse a Raimundo de Aguilers que compartilhasse suas reflexões sobre a natureza e o significado de uma Cruzada, a resposta poderia ser um olhar perdido no vazio. A palavra 'cruzada' – cruciata em latim, crociata em italiano, crozada em antigo occitano – era usada raramente e nem existia antes do século XIII. E embora 'cruzada' derive da palavra que significa 'cruz', refere-se principalmente ao símbolo que os viajantes costuravam em suas roupas. Digo isso porque seria talvez fácil para nós exagerar as associações entre o termo 'cruzada' e as noções triunfalistas de marchar com a Cruz de Cristo em terras pagãs e hostis. As expressões originais para essas expedições as descreviam simplesmente como uma viagem a Jerusalém ou ao Santo Sepulcro, e um participante da viagem era chamado de peregrinus, uma palavra que na época clássica indicava um estrangeiro ou forasteiro (e, portanto, por extensão, um viajante). Tudo isso nos conduz ao princípio essencial das Cruzadas, tal como foram concebidas originalmente: uma Cruzada deve ser entendida não como uma campanha militar no sentido moderno, mas como uma peregrinação armada, onde o objetivo terreno era a libertação dos lugares santos e o benefício espiritual era a remissão dos pecados e a união com Deus.
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