No ano em que Nero e Lúcio Pisão foram cônsules, ou seja, 57 d.C., Tácito relata que poucos eventos mereceram registro. Entre eles, destaca-se o processo doméstico de Pomponia Grecina, uma matrona ilustre casada com Aulo Pláucio, o general que obteve a ovação por suas vitórias na Britânia. Acusada de adotar uma superstição estrangeira, foi submetida ao julgamento do marido, conforme o antigo instituto romano. Pláucio, na presença dos parentes, instruiu o processo sobre a vida e a reputação da esposa e a declarou inocente.
Pomponia viveu longos anos marcados por uma tristeza contínua. Após o assassinato de Júlia, filha de Druso, tramado por Messalina, ela usou luto por quarenta anos e não conheceu outro sentimento senão a melancolia. Esse comportamento, sob o principado de Cláudio, não lhe trouxe punições; mais tarde, tornou-se motivo de glória. Provavelmente filha de Caio Pompônio Grecino e neta de Vipsânia Agripina, primeira esposa do imperador Tibério, sua família e a do marido eram muito próximas da corte imperial. Viveu aproximadamente até o ano 83 d.C.
O "culto estrangeiro ilegal" de que foi acusada é quase certamente o Cristianismo. A confirmação veio com a descoberta do arqueólogo Giovanni Battista de Rossi, que encontrou inscrições sepulcrais de um Pompônio Grecino e de um Pompônio Basso na parte mais antiga (século I) das catacumbas de São Calisto, na Via Ápia. Essas inscrições, nas Criptas de Lucina, ligam Pomponia ao mundo cristão primitivo.
O julgamento pelo marido, segundo o direito romano arcaico, era um recurso para crimes que tocavam a moral, a religião ou a esfera familiar. A reutilização desse instituto em 57 d.C. sinaliza a tolerância inicial de Nero para com os adoradores de Jesus de Nazaré. Júlia, filha de Druso, era Júlia Lívila, neta de Tibério e Vipsânia Agripina. A imperatriz Messalina a acusou de incesto, obtendo sua condenação à morte. Júlia e Pomponia eram amigas e parentes por parte de Vipsânia Agripina, avó de ambas.
A morte da amiga coincidiu com uma mudança radical na vida de Pomponia, que não passou despercebida. A tristeza e a severidade de seu novo estilo de vida são sinais de sua conversão ao Cristianismo. Os pagãos acusavam os cristãos de serem moralistas tristes por não participarem da "onda de vícios", como observa São Pedro em sua Primeira Carta (4,4). A morte de Júlia e o luto de Pomponia, eventos de 43 d.C., coincidem aproximadamente com a chegada de São Pedro a Roma, em 42 d.C.
Com base nas inscrições encontradas, De Rossi propôs identificar Pomponia Grecina com "Santa Lucina, discípula dos Apóstolos", que com seus bens provia as necessidades dos santos, visitava os cristãos presos e sepultava os mártires, sendo ela mesma sepultada em uma cripta que construiu. O Martirológio Romano a recorda em 30 de junho. Segundo De Rossi, a matrona romana mencionada por Tácito teria assumido o nome de Lucina no batismo.
A história de Pomponia Grecina, preservada por Tácito e confirmada pela arqueologia, revela a presença do Cristianismo nas camadas mais altas da sociedade romana já no século I. Sua vida de luto e piedade, sua absolvição num julgamento familiar e sua possível identificação com Santa Lucina fazem dela uma figura emblemática da fé cristã primitiva, testemunha silenciosa da perseguição e da graça.
📎 Fonte original: Radiospada
