Imagens do que aparenta ser um casamento laico celebrado na abadia do Mont-Saint-Michel ganharam grande repercussão nas redes sociais. As fotos, divulgadas no Instagram, mostram a modelo chinesa Ming Xi em trajes nupciais dentro do santuário. Embora as imagens sejam visualmente impactantes, elas levantam uma questão grave: como é possível realizar esse tipo de cerimônia no local mais sagrado do Mont-Saint-Michel? Não se trata do terraço ou do claustro, mas da própria abadia, onde diariamente são celebradas missas e ofícios pela Fraternidade Monástica de Jerusalém.
A abadia do Mont-Saint-Michel, como muitas igrejas francesas, foi espoliada pelo Estado durante a Revolução Francesa. Atualmente, o local é cogestionado pelo Centro dos Monumentos Nacionais e pelo Estabelecimento Público do Mont-Saint-Michel. No site oficial, é possível alugar a abadia entre 18h e 21h a partir de 3.000 euros. A tabela de preços especifica: "Abadia 600 m²: 450 pessoas sentadas exclusivamente para concertos". No entanto, a opção de casamento laico também está disponível, conforme evidenciado pelo evento de Ming Xi.
Casais católicos que desejam se casar na abadia têm o pedido recusado sob a justificativa de que o local é um museu administrado pelo Estado. A situação é ainda mais paradoxal quando se considera que a abadia é palco de concertos que, segundo o documento romano de 1987, não respeitam o caráter sagrado do templo. O documento afirma: "Não é legítimo programar em uma igreja a execução de uma música que não seja de inspiração religiosa e que tenha sido composta para ser executada em contextos profanos específicos, seja ela clássica ou contemporânea, de alto nível ou popular: isso não respeitaria nem o caráter sagrado da igreja nem a própria obra musical, que seria executada em um contexto que não lhe é natural."
O Estabelecimento Público do Mont-Saint-Michel possui um conselho de orientação composto por membros religiosos, conforme o Decreto n° 2019-1338 de 11 de dezembro de 2019 (artigo 14). No entanto, a existência desse conselho parece inútil diante da falta de respeito pela sacralidade da abadia. A pergunta que se impõe é: com que direito os gestores do monumento pisoteiam a própria razão de ser do local? Será que o dinheiro justifica qualquer condição?
A situação é agravada pelo fato de que a abadia, embora tenha sido desconsagrada de fato durante a Revolução, nunca foi reconsagrada canonicamente. No entanto, a celebração diária da missa e dos ofícios pela Fraternidade Monástica de Jerusalém confere ao local um caráter sagrado inegável. A realização de um casamento laico nesse contexto é vista como um escândalo e uma profanação, especialmente porque casais católicos são impedidos de celebrar o sacramento do matrimônio no mesmo local.
A polêmica reacende o debate sobre a gestão de igrejas históricas na França, muitas das quais foram transformadas em museus ou espaços para eventos, em detrimento de seu uso religioso original. Enquanto isso, os fiéis católicos se veem excluídos de seus próprios templos, enquanto cerimônias seculares e eventos comerciais são permitidos mediante pagamento. A questão central permanece: até que ponto a mercantilização de lugares sagrados é aceitável, e quem tem autoridade para decidir o que é ou não permitido nesses espaços?
📎 Fonte original: Lesalonbeige
