A excomunhão dos quatro bispos da FSSPX em 1988, após as sagrações não autorizadas por João Paulo II, foi um ato que visava proteger a unidade da Igreja. No entanto, desde então, a Fraternidade tem demonstrado sua ortodoxia doutrinária e seu zelo pela Tradição, enquanto negociações para uma regularização canônica se arrastam por décadas. Em contraste, bispos e padres envolvidos no escândalo de abusos sexuais raramente enfrentaram medidas canônicas tão severas. Casos como o do Cardeal Bernard Law, que renunciou apenas após pressão pública, ou de dezenas de clérigos que foram transferidos de diocese em vez de serem laicizados, mostram uma disparidade chocante.
A FSSPX nunca foi acusada de heresia ou cisma formal; suas posições são baseadas na defesa da doutrina católica tradicional, como a rejeição do modernismo e a validade da Missa Tridentina. O Código de Direito Canônico prevê a excomunhão para atos de cisma, mas a Fraternidade sempre afirmou sua submissão ao Papa, embora critique certas inovações pós-Concílio Vaticano II. Enquanto isso, a hierarquia eclesiástica mostrou-se tolerante com clérigos que cometeram crimes graves, muitas vezes protegendo-os para evitar escândalos, como revelado em inúmeros relatórios judiciais e investigações jornalísticas.
O escândalo dos abusos não é apenas moral, mas também doutrinal: a negligência na aplicação da disciplina canônica mina a autoridade da Igreja e sua credibilidade. Como escreveu o Padre John Hardon, 'a tolerância do erro é o maior erro'. A excomunhão da FSSPX, por outro lado, parece ser um ato de força contra aqueles que, embora desobedientes em um ponto específico, permanecem fiéis à doutrina perene da Igreja. Muitos católicos tradicionais veem nisso uma perseguição aos que se opõem às reformas liberais do Concílio Vaticano II.
A situação é agravada pelo fato de que a FSSPX tem crescido numericamente e espiritualmente, enquanto muitas dioceses que aplicam a 'Nova Missa' e o espírito conciliar veem declínio na prática religiosa. Os fiéis que frequentam as capelas da Fraternidade são conhecidos por sua devoção e ortodoxia, contrastando com a crise de fé em outras partes da Igreja. Isso levanta a questão: a excomunhão não seria, na verdade, uma tentativa de silenciar uma voz crítica que aponta os desvios doutrinários e litúrgicos que contribuíram para o atual caos moral?
O Papa Bento XVI tentou uma reconciliação com a FSSPX, removendo as excomunhões em 2009 e iniciando diálogos teológicos. No entanto, as negociações estagnaram, em parte devido à resistência de setores progressistas da Cúria. Enquanto isso, o escândalo dos abusos continua a explodir, com novas revelações de encobrimentos em todo o mundo. A hierarquia parece ter mais energia para punir tradicionalistas do que para lidar com a podridão interna que levou a Igreja a uma crise de credibilidade sem precedentes.
Em suma, a excomunhão da FSSPX enquanto o escândalo dos abusos é tolerado revela uma inversão de valores que escandaliza os fiéis. A Igreja precisa de uma reforma que comece pela aplicação consistente da disciplina canônica, sem acepção de pessoas, e que priorize a defesa da doutrina e da moral católicas. Enquanto isso não ocorrer, a suspeita de que há uma agenda para marginalizar a Tradição em favor de uma 'Igreja conciliar' continuará a corroer a confiança dos católicos.
