Na comemoração de São Paulo, a Igreja Romana lê o trecho da Epístola aos Gálatas (I, 18) em que o Apóstolo recorda que, três anos após sua conversão, subiu a Jerusalém para ver Pedro. São João Crisóstomo, em seu Comentário à Epístola aos Gálatas (PG 61, 631-633), oferece uma análise profunda desse evento, revelando a humildade de Paulo e o reconhecimento do primado de Pedro.
Crisóstomo pergunta: "O que poderia ser mais modesto do que a alma de Paulo?" Após feitos tão grandes e ilustres, Paulo não tinha necessidade de Pedro nem de sua voz, sendo igual a ele em honra — ambos eram Apóstolos. No entanto, subiu a Jerusalém como a um superior e ancião, movido apenas pelo desejo de vê-lo e honrá-lo. O Doutor da Igreja observa que Paulo não se considerava melhor nem igual, o que fica claro pela própria viagem.
O santo compara a atitude de Paulo com a dos peregrinos modernos que visitam homens santos para seu próprio proveito. Paulo, ao contrário, não foi aprender nem receber correção, mas apenas para ver Pedro e honrá-lo com sua presença. Crisóstomo nota que Paulo usou o verbo grego "historesai", que significa ver e conhecer, como quem visita grandes cidades pelo prazer de conhecê-las, tamanha era a estima que tinha por Pedro.
O fato de Paulo ter ido a Pedro após converter muitas nações — Panfília, Licaônia, Cilícia e toda aquela região — demonstra o grande reconhecimento do primado. Além disso, permaneceu com Pedro por quinze dias, o que, segundo Crisóstomo, prova sua amizade e intensa caridade.
A cronologia desses eventos é elucidada por Marta Sordi. Na Epístola aos Gálatas, Paulo menciona que após sua conversão foi para a Arábia e depois a Damasco; três anos depois subiu a Jerusalém para ver Pedro, ficando quinze dias; em seguida foi para a Síria e Cilícia; e catorze anos depois subiu novamente a Jerusalém com Barnabé e Tito (Atos XV, 49 d.C.). Sordi argumenta que os catorze anos devem ser contados a partir da partida de Paulo de Jerusalém após o encontro com Pedro, situando esse encontro no ano 36 d.C., e a conversão de Paulo no ano 34 d.C.
É importante notar que São Paulo não recebeu o Evangelho dos homens, mas foi chamado à fé e recebeu o conhecimento das verdades cristãs diretamente de Jesus Cristo (Atos IX, 5 e ss.; XXVI, 15 e ss.; II Cor. XII, 2 e ss.). No entanto, como ensina São Pio X na encíclica Ex quo nono, é um erro, já condenado por Inocêncio X, considerar São Paulo um irmão completamente igual a São Pedro. O exemplo de Paulo, ao submeter-se a Pedro, confirma o primado do Príncipe dos Apóstolos.
📎 Fonte original: Radiospada
