Quando os outros Apóstolos anunciaram a Tomé que o Senhor havia ressuscitado, não lhe disseram: “Jesus é realmente Deus”. Foi o próprio São Tomé quem, ao ver o Ressuscitado, proclamou com audácia esta verdade. Embora não tivesse confiado no testemunho dos discípulos, no momento em que Nosso Senhor o convidou a tocar as chagas, Tomé não hesitou. Tocando apenas a humanidade de Cristo, ele reconheceu e confessou a sua divindade, atribuindo-Lhe os títulos que, no Antigo Testamento, pertencem exclusivamente ao Criador: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Ao dizer “Meu Senhor”, entregava-se inteiramente como escravo, abandonando-se por completo nas mãos de Jesus. Da sua fé robusta brotou, naquele instante, um ato profundo de amor e de adoração. Era uma alma reta, inocente e inteiramente disposta a dar-se sem reservas. “Ó maravilhosa perspicácia deste homem! — exclama São Tomás de Villanueva. — Toca num homem e o proclama Deus; toca numa coisa e crê noutra. Se tivesse escrito mil códices, não teria prestado à Igreja maior serviço. Com que clareza, com que precisão, com que candura ele chama a Cristo pelo nome de Deus!”
No Brasil, em 1549, na esquadra do Governador Geral Dom Duarte da Costa, chegam à Bahia Nóbrega e Anchieta. Poucos dias depois, em carta aos jesuítas de Lisboa, conta o Pe. Nóbrega ter ouvido dos silvícolas referências a um evangelizador que, além de pregar a doutrina cristã, lhes ensinara a colher raízes comestíveis, como a mandioca da qual faziam a farinha. Quem seria ele?
Os índios davam-lhe o nome de Zomé, ou Sumé. E mostravam aos missionários algumas pegadas suas, gravadas a fundo na rocha bruta. Informa o Pe. Nóbrega em sua carta: “Dizem eles que São Tomé, a quem chamam Zomé, passou por aqui. Isto lhes foi dito por seus antepassados. E que suas pegadas estão marcadas na extremidade de um rio, as quais eu fui ver para ter mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pegadas muito assinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes o rio cobre quando transborda. Dizem também que quando deixou estas pegadas estava fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abriu o rio e ele passou para a outra parte sem molhar-se; e dali seguiu para a Índia. (…) Dizem também que lhes prometeu voltar outra vez para vê-los.”
Em outra carta, enviada ao provincial da Companhia de Jesus em Lisboa, relata que os índios “têm memória do dilúvio, mas falsamente, porque dizem que se cobrindo a terra de água, uma mulher com seu marido, subiram em um pinheiro, e depois de secadas as águas, desceram, e deles procederam todos os homens e mulheres”. Escrevendo no mesmo ano ao Dr. Martin de Azpicueta Navarro de Coimbra, ele volta ao assunto: “E também [os índios] têm notícia de São Tomé e de um companheiro seu, e há em uma rocha nesta Bahia umas pisadas que se têm por suas, e outras em São Vicente. Dizem dele que lhes deu o mantimento que eles agora têm, que são raízes de ervas; estão bem com ele, mas de um seu companheiro dizem mal. E não sei a causa, senão, como ouvi dizer, que as flechas que lhe eram atiradas voltavam-se contra os atiradores e os matavam. Espantam-se muito de ver nosso culto divino e a veneração que temos às coisas de Deus”.
Quando gravou assim milagrosamente na rocha as marcas de seus pés, estava o santo Apóstolo “fugindo dos índios que o queriam flechar”. Teria querido ele, num último ato de bondade, deixar para os silvícolas um testemunho que os ajudasse a crer na palavra dos missionários que, séculos depois, viriam trazer-lhes de novo a graça da evangelização?
Dando adesão à pia crença de que essas pegadas eram de São Tomé, os zelosos apóstolos jesuítas promoviam romarias ao local. Em carta de 1552, o Pe. Francisco Pires relata uma dessas peregrinações, dirigida pelo então irmão jesuíta Vicente Rodrigues, depois ordenado sacerdote e nomeado superior da Companhia, em São Paulo: “No restante da noite tivemos grandes cumprimentos com o Principal (Cacique) que estava presente. Disseram-nos que morássemos ali e que nós, que sabíamos, os ensinássemos e eles nos fariam uma casa nas pegadas do bem-aventurado Santo. Com eles partimos de manhã (…) Lá chegando era meia maré baixa, e vimos pegadas, que as cobre a maré cheia, que estão em pedra muito dura, e as pegadas assinaladas como de homem que fugindo escorregava, e a pedra cedeu sob seus pés como se fosse barro”.
Sobre a passagem de São Tomé por terras americanas, escreve o conhecido historiador Rocha Pitta: “A vinda do glorioso Apóstolo S. Tomé anunciando a doutrina católica, não só no Brasil, mas em toda a América, tem mais razões para se crer que para se duvidar; pois mandando Cristo Senhor Nosso aos seus sagrados Apóstolos pregar o Evangelho a todas as criaturas e por todo o mundo, não consta que algum dos outros viesse a esta região, tantos séculos habitada antes da nossa Redenção; e depois de remidas tantas almas, não deviam ficar mil e quinhentos anos em ignorância invencível da lei da graça; e posto que nas sortes tocasse a este santo Apóstolo a missão da Etiópia e da Índia, e se não fale na América (então por descobrir) não se pode imaginar que faltasse a providência de Deus a estas criaturas com a pregação, que mandara fazer a todas. “De ser o Apóstolo S. Tomé o que no Mundo Novo pregou a doutrina evangélica, há provas grandes, com o testemunho de muitos sinais em ambas as Américas: na castelhana, aquelas duas cruzes que em diferentes lugares acharam os Espanhóis com letras e figuras, que declaravam o próprio nome do Apóstolo, como escrevem Joaquim Brulio, Gregório Garcia, Fernando Pizarro, Justo Lípsio e o Bispo de Chiapa; e na nossa portuguesa América, os sinais do seu báculo e dos seus pés, e a tradição antiga e constante em todos estes gentios, de que era de um homem de largas barbas, a quem com pouca corrupção chamavam no seu idioma Sumé, acrescentando, lhes viera a ensinar coisas da outra vida, e que não sendo deles ouvido, o fizeram ausentar” (História da América Portuguesa, vol. XXX – W.M. Jackson Inc. Editores — 1970).
📎 Fonte original: Gaudiumpress
