São Paulo nasceu em Tarso da Cilícia, em uma família de judeus emigrados, no primeiro decênio do século I d.C. O Apóstolo se define como 'da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus' (Fl 3,5) e orgulhosamente proclama ter recebido do pai a cidadania romana: 'Somos romanos' (At 16,37). Em 1Coríntios 7,8, deduz-se que não se casou. Sabemos ainda que tinha uma irmã casada, mãe de um jovem providencial.
Este jovem aparece em um momento crítico da vida de São Paulo, narrado por São Lucas nos capítulos 21, 22 e 23 dos Atos dos Apóstolos. Em Jerusalém, no ano 54 ou 57 d.C., o Apóstolo é agredido e quase linchado pelos judeus sob a falsa acusação de ter introduzido um gentio no Templo, profanando-o. É salvo pela intervenção oportuna do tribuno Cláudio Lísias, que o prende acreditando ser um rebelde egípcio mencionado por Flávio Josefo. Constatado o erro, Lísias permite que Paulo fale aos judeus, mas estes, ao ouvirem que Deus chamava também os pagãos à salvação, recomeçam o tumulto e pedem a morte de Paulo.
O tribuno então manda conduzir o prisioneiro à fortaleza Antônia e ordena que seja açoitado e interrogado. Paulo revela ser cidadão romano, e o terror se apodera dos presentes: as leges Porciae previam penas severíssimas para quem punisse um cidadão romano antes do julgamento. Lísias manda soltar o Apóstolo, mas o mantém na fortaleza. No dia seguinte, Paulo comparece diante do Sinédrio e novamente arrisca o linchamento por chamar o sumo sacerdote de 'parede caiada' e provocar uma disputa entre fariseus e saduceus.
Enquanto isso, o Apóstolo é constantemente consolado por aparições do Senhor Jesus: 'Coragem! Pois assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, é necessário que também o dês em Roma' (At 23,11). E então a história sagrada assume contornos de um thriller de espionagem. Cede-se a palavra a São Lucas (At 23,12-24): 'Quando amanheceu, alguns judeus conspiraram, fazendo voto com imprecações de não comer nem beber até que tivessem matado Paulo. Eram mais de quarenta os que fizeram essa conspiração. Foram ter com os príncipes dos sacerdotes e os anciãos e disseram: “Fizemos voto com imprecação de não provar alimento até que tenhamos matado Paulo. Agora, pois, com o Sinédrio, fazei saber ao tribuno que o mande descer até vós, como se quisésseis examinar mais a fundo a sua causa; e nós, antes que ele chegue, estaremos prontos para matá-lo”. Mas o filho da irmã de Paulo, tendo ouvido falar dessa emboscada, foi à fortaleza, entrou e contou a Paulo. E Paulo, chamando um dos centuriões, disse: “Leva este jovem ao tribuno, pois tem algo a comunicar-lhe”. Ele o tomou, levou ao tribuno e disse: “O preso Paulo chamou-me e pediu-me que te trouxesse este jovem, que tem algo a dizer-te”. O tribuno, tomando-o pela mão e retirando-se à parte, perguntou: “Que tens a comunicar-me?”. Ele respondeu: “Os judeus combinaram pedir-te que amanhã leves Paulo ao Sinédrio, como se quisesses investigar mais exatamente a sua causa. Mas não lhes dês crédito, pois mais de quarenta deles lhe preparam uma emboscada, tendo feito voto com imprecações de não comer nem beber até que o tenham matado; e agora estão prontos, esperando a tua promessa”. O tribuno despediu o jovem, ordenando-lhe que não dissesse a ninguém que lhe havia revelado essas coisas. E, chamando dois centuriões, disse: “Preparai duzentos soldados, setenta cavaleiros e duzentos lanceiros para irem até Cesareia, à terceira hora da noite; e providenciai montarias para pôr Paulo em cima e conduzi-lo salvo ao governador Félix”.'
Deste jovem não sabemos mais nada, nem mesmo se era cristão. Sabemos apenas que foi um instrumento da insondável Providência de Deus. Um pouco como o Menico de Manzoni, personagem menor, mas crucial para a salvação da parente Lúcia das tramas de Dom Rodrigo. A história do sobrinho de São Paulo nos recorda que Deus se serve de pessoas simples e anônimas para realizar seus desígnios, e que a fidelidade a um parente pode ter consequências eternas.
📎 Fonte original: Radiospada
