Um novo ensaio no jornal vaticano L'Osservatore Romano, examinando o Livro do Gênesis, argumenta que a narrativa não trata principalmente do diabo e do pecado original, em contraste com a interpretação tradicional.
Em 4 de julho, o L'Osservatore Romano – jornal oficial da Santa Sé – publicou um artigo da teóloga italiana Marinella Perroni, segundo o qual na narrativa do Gênesis não há vestígios nem do diabo nem do pecado original no sentido em que a Tradição cristã os interpretou. Pelo contrário, Perroni sustenta que o texto original descreve a “relação entre Deus e a humanidade” em vez da ação de Satanás ou de uma doutrina de culpa herdada.
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O artigo começa examinando os capítulos iniciais do Gênesis, onde Deus coloca a humanidade no Jardim do Éden “para cultivá-lo e guardá-lo” (Gênesis 2:15). Perroni observou que o relato bíblico apresenta o Éden como um lugar de “beleza e perigo”, onde os seres humanos encontram os limites de sua condição criada. Segundo o ensaio, a questão central da narrativa é o desejo da humanidade de se tornar “como Deus”, buscando acesso ao que pertence apenas ao divino.
O relato do Gênesis identifica três figuras principais: a serpente, a mulher e o fruto. Perroni diz que o texto simplesmente se refere a um fruto de um jardim onde todas as árvores eram descritas como agradáveis e boas para alimento. A serpente aparece como uma criatura associada ao engano, mas o artigo argumenta que a passagem do Gênesis não a identifica com Satanás ou um poder maligno sobrenatural.
“Um dos mitos religiosos mais pungentes da antiguidade revela assim, em poucas linhas, tanto a grandeza quanto a miséria do ser humano – a mais extraordinária das criaturas, a mais próxima do divino, mas ao mesmo tempo a única sobrecarregada com a amarga consciência de não ser Deus”, afirma Perroni. “O diálogo entre a serpente e a mulher é o primeiro grande discurso teológico da Bíblia”, continua a teóloga. “Ser como Deus – isto é, poder comer da árvore da vida… É muito bonito que, no Éden, a mulher assuma o papel de quem tem a coragem de entrar nesse desejo, de reivindicar o direito a ele e discutir seus limites, de ajudar a definir aquela fronteira intransponível que separa os humanos de Deus, sem qualquer possibilidade de negociação.”
E novamente, ela acrescenta com grande confiança que, “No antigo mito bíblico comumente chamado de Queda, não há diabo, nem poder divino ao qual os seres humanos estejam sujeitos”. Segundo Perroni, o relato em Gênesis 3 fala apenas da “contradição” pela qual “ser de Deus, escolhido por Deus, não significa ser como Deus. E nisso reside a tensão inesgotável entre a humanidade e o divino – não há pecado”.
Para apoiar sua interpretação, a teóloga observa que, “na Bíblia – especialmente nos escritos proféticos – o pecado é mencionado com frequência, mas sempre para condenar o afastamento do povo da Lei de Deus, as escolhas bélicas dos reis, a infidelidade à aliança que Deus desejava estabelecer com Israel. Sempre em relação a eventos históricos, nunca com referência à transgressão de Eva”.
Antecipando a objeção de que livros bíblicos como Sabedoria ou, posteriormente, as cartas paulinas fazem referência explícita ao Pecado Original, a teóloga italiana recorre ao método histórico-crítico. “Muito tarde – começando por volta do século VI a.C. – a especulação sobre espíritos malignos, comum a todos os sistemas de crenças antigos, introduziu elementos adicionais na teologia judaica e cristã, como os anjos que se rebelaram contra Deus e foram lançados no inferno, começando assim a alterar suas características originais.” Consequentemente, segundo Perroni, até mesmo a angelologia e a demonologia clássicas seriam produtos de mitologias.
A escritora então argumenta que os Evangelhos contêm distorções mitológicas: “Essa ideia, no entanto, entrou na teologia cristã muito cedo, como mostra toda a tradição do Novo Testamento – desde os relatos das tentações de Jesus até o Apocalipse. E o chefe dos anjos caídos assumiria muitos nomes: diabo, Satanás, dragão, serpente antiga, Belzebu”.
“Paulo, por sua vez, ecoa uma interpretação da história da criação da mulher que evidentemente circulava no judaísmo de seu tempo e que estabelecia a hierarquia dos sexos como uma lei criatural”, acrescenta a teóloga. “E mais tarde, um de seus discípulos a intensificaria (cf. 1 Timóteo 2:13-15). Estes são os primeiros passos de uma hipoteca que pesaria fortemente sobre a Tradição cristã subsequente.”
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“Graças a um catecismo infantil e a uma pregação implacável, a ideia permanece gravada em pedra de que precisamente ali, naquela primeira transgressão – inteiramente atribuída à mulher e à sua relação com o demônio – reside uma falha original, uma condenação da qual nenhum ser humano pode jamais escapar”, continua Perroni, acrescentando que “as batalhas feministas dentro e fora das igrejas exigiram um repensar do papel de Eva e a libertação de sua figura dos fardos de culpa acumulados ao longo de milênios”.
Perroni lecionou teologia do Novo Testamento no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo em Roma, onde serviu como professora por muitos anos. Seu trabalho acadêmico foca nos Evangelhos, na literatura paulina e na presença e papel das mulheres nas primeiras comunidades cristãs, área na qual é considerada uma voz líder. Ela também é membro fundadora e ex-presidente (2003-2013) da Coordenação de Teólogas Italianas, a principal associação de teólogas italianas, e publicou extensivamente sobre estudos bíblicos com foco feminista e “estudos de gênero” nas Escrituras.
📎 Fonte original: Lifesitenews
