Três teólogas católicas alemãs publicaram artigo no site oficial da Conferência Episcopal Alemã pedindo que a Igreja abandone a apresentação tradicional de Santa Maria Goretti como 'mártir da pureza', argumentando que tal narrativa pode prejudicar vítimas de violência sexual.
Três teólogas católicas alemãs estão pedindo que a apresentação tradicional de Santa Maria Goretti como 'mártir da pureza' seja abandonada à luz das tendências modernas da psicologia. Em 6 de julho, o site oficial de notícias da Conferência Episcopal Alemã, Katholisch.de, publicou um artigo escrito pelas teólogas Philippa Haase, Judith König e Ute Leimgruber, pedindo uma reavaliação da representação de longa data de Santa Maria Goretti como 'mártir da pureza'. O grupo argumenta que a interpretação tradicional pode ter consequências prejudiciais para as vítimas de violência sexual.
'O problema não é o perdão em si', escrevem as autoras, 'mas a sequência e o apelo oculto dirigido à vítima: resista, permaneça 'pura', perdoe e, se necessário, morra. Não há exigência comparável feita ao (potencial) agressor.'
O artigo relata os eventos históricos em torno de Maria Goretti, que nasceu na Itália em 1890. Em 5 de julho de 1902, a menina de 11 anos foi atacada por Alessandro Serenelli, de 20 anos, que tentou estuprá-la. Após ela resistir, Serenelli a esfaqueou repetidamente. Ela morreu devido aos ferimentos no dia seguinte, perdoando seu assassino.
De acordo com as autoras, a Igreja rapidamente interpretou sua morte como martírio, enfatizando que ela havia sacrificado sua vida para preservar sua pureza. Elas observam que, após o Papa Pio XII canonizar Maria Goretti em 1950, gerações de meninas católicas foram apresentadas a ela como modelo, acompanhadas pela mensagem de que a morte é preferível a render a própria pureza sexual.
Haase, König e Leimgruber argumentam que essa ênfase 'desvia a atenção' do fato de que Santa Maria Goretti era antes de tudo uma criança de 11 anos que se tornou vítima de um crime violento. Elas sustentam que a apresentação hagiográfica tradicional focava principalmente em duas expectativas colocadas sobre a vítima: 'preservar a pureza sexual e perdoar seu agressor'.
As autoras também chamam a atenção para um detalhe do processo de canonização, afirmando que Serenelli supostamente se referiu à beleza e ao desenvolvimento físico da menina como circunstâncias atenuantes. Elas identificam isso como um exemplo do que a pesquisa moderna sobre violência descreve como 'mitos de estupro', narrativas que desviam a atenção da responsabilidade do agressor para o corpo ou comportamento da vítima.
O artigo argumenta ainda que descrever Santa Maria Goretti como 'mártir da pureza' baseia-se em várias suposições. Primeiro, dizem, 'a virgindade física é equiparada à pureza moral'. Segundo, argumentam que tal linguagem pode sugerir que mesmo 'a violência sexual cometida contra uma mulher afeta sua pureza moral'. Terceiro, sustentam que a fórmula tradicional, muitas vezes resumida como 'a morte é melhor que o pecado', implica que preservar a pureza sexual tem precedência sobre preservar a própria vida.
Para apoiar seu argumento, as autoras citam testemunho contido no relatório de abusos encomendado pela Diocese de Fulda. Elas citam uma sobrevivente que recordou ter sido repetidamente solicitada a interpretar Santa Maria Goretti resistindo à agressão sexual, uma experiência que ela descreveu como assustadora porque se entrelaçou com seu próprio abuso.
O artigo também examina o relato tradicional de Santa Maria Goretti perdoando Serenelli antes de sua morte. As três teólogas alemãs observam a narrativa posterior de que Serenelli experimentou uma conversão enquanto estava na prisão após uma visão de Maria apresentando-lhe lírios, eventualmente entrando para a vida religiosa e participando de sua cerimônia de canonização. As autoras argumentam que essa apresentação corre o risco de colocar 'expectativas morais adicionais sobre as vítimas ao vincular a santidade ao perdão do agressor'.
Concluindo sua intervenção, Haase, König e Leimgruber afirmam que as experiências de sobreviventes de abuso demonstram como narrativas que incentivam meninas e mulheres a preferir a morte à violência sexual podem reforçar 'vergonha e autoculpabilização'. Elas argumentam que a categoria de 'mártires da pureza não deve mais ser mantida', particularmente à luz das experiências de 'milhares de mulheres e meninas que sofreram abusos dentro da Igreja Católica'.
A devoção tradicional a Santa Maria Goretti nunca foi historicamente entendida pela Igreja como uma condenação das vítimas de abuso sexual. Pelo contrário, tem sido apresentada como um testemunho de castidade, coragem e perdão diante do mal. O Papa Pio XII, em sua canonização, exaltou seu exemplo como de virtude heroica, não de culpabilização da vítima. Para muitos católicos, Santa Maria Goretti continua sendo um símbolo de fidelidade a Cristo e da convicção de que a integridade moral pode ser preservada mesmo em meio a grave sofrimento.
📎 Fonte original: Lifesitenews
