Em declarações recolhidas pela fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), o prelado afirmou que os terroristas já não escondem seus objetivos. "As sinais estão aí. Falam abertamente de um califado. Quando encontram pessoas, quando sequestram vítimas, é o que dizem: que estão a trabalhar para um califado", assegurou.
A violência tem atingido com especial dureza a Igreja Católica. Segundo dados da ACN, mais de 300 católicos foram assassinados desde o início da insurgência em 2017, muitos deles por decapitação, enquanto ao menos 117 igrejas e edifícios eclesiais foram destruídos. Entre os edifícios destruídos está a histórica igreja da missão de São Luís de Montfort, pertencente à diocese de Pemba. O templo, construído em 1946, foi incendiado e reduzido a cinzas no final de abril.
O que começou como uma série de ataques contra alvos militares e governamentais derivou progressivamente numa campanha de violência que afeta cada vez mais a população civil e as comunidades cristãs. Dom Juliasse sustenta que o discurso dos grupos armados deixa cada vez menos dúvidas sobre suas intenções. "Quando sequestram pessoas ou entram em contato com as populações locais falam da criação de um califado", explicou o bispo, que dirige uma das dioceses mais castigadas pela violência.
Além da violência física, o bispo adverte de uma crescente fratura social entre comunidades que durante décadas conviveram pacificamente. "O que me preocupa é o discurso de ódio que acompanha toda esta violência", afirmou. Dom Juliasse recordou que em numerosos povoados de Cabo Delgado era habitual que cristãos e muçulmanos participassem em funerais e celebrações familiares uns dos outros. No entanto, essa convivência começa agora a ser ameaçada pela radicalização e pela desconfiança. "A religião era um dos elementos que facilitavam a convivência, mas agora começa a tornar-se um fator de divisão", lamentou.
O bispo também criticou a escassa atenção que recebe a tragédia de Cabo Delgado tanto dentro como fora de Moçambique. "O silêncio pode interpretar-se como prudência, mas também como falta de interesse", advertiu. A seu juízo, a sociedade moçambicana precisa enfrentar abertamente as causas do conflito e debater soluções duradouras antes que a situação se deteriore ainda mais. "Precisamos falar do que está a acontecer, orientar a população e enfrentar juntos este problema como nação", assinalou.
Embora a ameaça jihadista continue ativa, a Igreja moçambicana considera que a solução não pode limitar-se exclusivamente à resposta militar. Dom Juliasse recordou que os bispos do país publicaram recentemente uma carta pastoral na qual denunciavam a situação e propunham caminhos alternativos para alcançar a paz. "Não creio que a opção militar seja a única solução. Moçambique conhece também o caminho do diálogo", afirmou. O prelado destacou que muitos dos combatentes são cidadãos moçambicanos e sustentou que qualquer solução duradoura deverá abordar as causas profundas que alimentaram o conflito.
Apesar de quase nove anos de guerra, o bispo quis transmitir uma mensagem de esperança aos fiéis. "É uma situação que nos causa uma grande dor, mas não devemos perder a esperança", concluiu. A crise de Cabo Delgado continua a ser uma das guerras menos conhecidas do mundo, mas suas consequências continuam a golpear cada dia milhares de famílias e uma Igreja que, apesar da perseguição e da destruição, mantém viva sua presença numa das regiões mais castigadas de África pelo terrorismo islamista.
📷 Foto: Nascimento Jr. via Pexels — Urban skyline featuring a historic church and vibrant buildings under a clear sky.
