Nos sessenta anos entre o Primeiro Concílio de Niceia (325) e o Primeiro Concílio de Constantinopla (381), a Igreja viveu uma das fases mais difíceis de sua história com a crise ariana. Foi um tempo de apostasia, no qual se destacaram defensores decididos da ortodoxia, como Santo Atanásio de Alexandria e Santo Hilário de Poitiers. Atanásio tornou-se particularmente o símbolo da luta contra o arianismo, que havia penetrado até os mais altos escalões da hierarquia eclesiástica.
Na discussão atual sobre ordenações episcopais sem mandato papal, o nome de Santo Atanásio é por vezes citado como exemplo de um bispo que teria ordenado novos bispos fora da disciplina canônica ordinária. No entanto, um exame cuidadoso das fontes históricas leva a conclusões bem diferentes. Para compreender corretamente a ação de Atanásio, é necessário recordar o quadro canônico do século IV. Nos primeiros séculos, ainda não existia o procedimento jurídico posterior que exigia um mandato papal expresso para cada ordenação episcopal. Havia, contudo, uma prática consolidada, codificada pelo Quarto Cânon do Primeiro Concílio de Niceia, que determinava que cada novo bispo fosse ordenado por todos os bispos da província eclesiástica ou, ao menos, por três, cabendo a confirmação final ao metropolita.
Após tornar-se bispo da sé metropolitana de Alexandria em 8 de junho de 328, Atanásio assumiu a responsabilidade por uma das maiores circunscrições eclesiásticas do Oriente cristão. O Sexto Cânon de Niceia determinava: 'Mantenha-se o costume antigo vigente no Egito, na Líbia e na Pentápole, de modo que o bispo de Alexandria tenha autoridade sobre todas estas regiões.' A resistência ariana à nomeação de Atanásio manifestou-se imediatamente. O Sínodo de Tiro, em 335, depôs Atanásio de forma irregular, enquanto o imperador Constantino ordenou seu primeiro exílio em Tréveris. A consequência desses eventos foi a constante alternância nas dioceses egípcias entre bispos fiéis a Niceia e candidatos apoiados pelo partido eusebiano.
A ação de Santo Atanásio não se limitou à defesa dogmática do Credo niceno, mas incluiu também uma intensa restauração da hierarquia eclesiástica nas províncias sob sua jurisdição. Após cada retorno do exílio, o bispo de Alexandria encontrava numerosas sés episcopais ocupadas por bispos pró-arianos, instalados com o apoio do poder imperial. Sua primeira tarefa era depô-los e substituí-los por pastores fiéis ao Credo de Niceia. O estudo fundamental de Annick Martin reconstituiu precisamente essa atividade, mostrando que as nomeações feitas por Atanásio diziam respeito a sés episcopais no Egito, Líbia e Pentápole, ou seja, territórios sob sua jurisdição canônica. Manlio Simonetti chega a conclusão semelhante, destacando que o patriarca restaurou a hierarquia nicena nas igrejas egípcias sem jamais ultrapassar os limites de sua competência eclesiástica.
A ação de Atanásio estava, portanto, em plena conformidade com a disciplina canônica da época, pois constituía o exercício natural da autoridade metropolitana de Alexandria. As numerosas ordenações episcopais a ele atribuídas nunca foram consideradas ilegítimas pela Igreja de seu tempo, justamente por ocorrerem dentro do território de sua jurisdição canônica. Embora realizadas em circunstâncias extraordinárias, tais ordenações nunca foram feitas contra o papa ou em oposição à Santa Sé. Pelo contrário: o reconhecimento por parte de Roma era um componente essencial da ação pastoral de Atanásio. Durante toda a crise ariana, o bispo de Alexandria buscou constantemente o apoio dos papas romanos e reconheceu sua autoridade.
Após sua deposição pelos sínodos orientais, Atanásio dirigiu-se a Roma, onde foi acolhido pelo Papa Júlio I. O Sínodo Romano de 341 declarou inválidas as acusações contra o patriarca alexandrino e reconheceu plenamente sua legitimidade. Em sua famosa carta aos bispos orientais, Júlio os repreendeu por terem agido sem consultar a Igreja Romana, lembrando que assuntos de tal importância deveriam ser submetidos ao juízo da Sé Apostólica. Nos anos seguintes, Atanásio manteve estreitas relações também com o Papa Libério. A fraqueza momentânea que este demonstrou durante seu exílio jamais alterou a atitude do patriarca egípcio, que continuou a considerar Roma como o centro da comunhão eclesiástica. Ainda mais estreita foi posteriormente a colaboração com o Papa Dâmaso I, que apoiou energicamente a restauração da ortodoxia nicena e confirmou a autoridade da Sé Alexandrina.
O Cardeal John Henry Newman, em sua obra 'Os Arianos do Século IV', destacou claramente o significado eclesiológico desses eventos. Atanásio resistiu aos imperadores, aos concílios de tendência ariana e à pressão política, mas jamais questionou o princípio do primado romano. Sua luta era contra bispos hereges e contra a ingerência do poder temporal, não contra a constituição hierárquica da Igreja. Toda a sua ação pastoral esteve sempre inserida no exercício legítimo da jurisdição da Sé Alexandrina e na busca da comunhão com a Sé Romana. As ordenações episcopais realizadas por Atanásio constituíram um ato ordinário de governo eclesiástico, que só adquiriu caráter extraordinário devido às circunstâncias excepcionais criadas pela interferência do poder imperial nas controvérsias dogmáticas. Atanásio era o legítimo patriarca de Alexandria; suas ordenações ocorreram dentro de sua jurisdição patriarcal; e ele buscou continuamente o apoio dos papas romanos. Por isso, o exemplo de Santo Atanásio não pode ser invocado para justificar ordenações episcopais sem mandato papal ou em ruptura com a Sé Apostólica.
📎 Fonte original: Katholisches
