Em 1944, a Irmã Lúcia, sob obediência ao Bispo José da Silva e após aparição de Nossa Senhora, escreveu a terceira parte do Segredo de Fátima, selando-a com a ordem de abertura apenas em 1960 pelo Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Bispo de Leiria.
No artigo anterior, discutimos a formação inicial de Lúcia e como suas Memórias foram escritas. No presente artigo, focaremos na composição da terceira parte do Segredo.
A redação da terceira parte ocorreu separadamente das Memórias, mas está organicamente ligada à sua história. Como as Memórias foram endereçadas ao Bispo da Silva, ele as leu junto com seus colaboradores próximos. Pouco após a conclusão da quarta Memória no final de 1941, Lúcia adoeceu gravemente. Sua saúde era tão precária que as pessoas genuinamente temiam por sua vida. Os colaboradores do Bispo da Silva o encorajaram a ordenar que Lúcia escrevesse a terceira parte, para que ela não morresse sem deixar esse conhecimento à Igreja.
O Bispo da Silva, a princípio, relutou em ordenar Lúcia e deixou o assunto a seu critério. Mais tarde, convenceu-se da gravidade da situação e deu-lhe uma ordem direta. Lúcia mantivera silêncio sobre a terceira parte desde 13 de julho de 1917, tendo recebido ordem expressa da Virgem para silenciar. A permissão do Céu para escrever as duas primeiras partes fora dada, mas não a terceira. Sendo submetida à obediência religiosa, Lúcia acreditava que uma ordem de seus superiores religiosos era como se viesse de Deus. Assim, ela enfrentou um sério dilema: a quem obedecer, à Bem-Aventurada Virgem Maria ou ao Bispo da Silva?
Devido a esse dilema, Lúcia experimentou uma incapacidade física de escrever a terceira parte sob o comando do Bispo da Silva. No entanto, se ela se concentrasse em escrever qualquer outra coisa, podia fazê-lo sem problema algum. Em meio a essa dificuldade, no início de janeiro de 1944, Nossa Senhora apareceu a Lúcia. Durante essa aparição, a Virgem disse-lhe que essa dificuldade era um teste para provar a fé, humildade e obediência de Lúcia. Nossa Senhora então ordenou a Lúcia: "Escreve o que te mandam, mas não aquilo que te é dado a entender do seu significado." Uma ordem adicional foi dada para selar o texto em um envelope e escrever do lado de fora que o envelope "só poderia ser aberto em 1960 pelo Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Bispo de Leiria".
As informações detalhadas sobre a aparição de janeiro de 1944 só surgiram recentemente. Em outubro de 2013, as Carmelitas de Coimbra publicaram uma biografia da Irmã Lúcia intitulada "Um caminho sob o olhar de Maria". Antes da publicação do livro, o público sabia dessa aparição, mas não as palavras precisas de Nossa Senhora. As Carmelitas usaram o diário espiritual ("O meu caminho") que Lúcia manteve por sessenta anos para fornecer ao público as palavras de Nossa Senhora.
Basta dizer que, por sua parte, Lúcia obedeceu a esse novo comando. Ela escreveu a terceira parte do Segredo (em condições menos que ideais) e colocou-a em dois envelopes por razões de segurança. Do lado de fora desses envelopes, ela escreveu: "Por ordem expressa de Nossa Senhora, este envelope só pode ser aberto em 1960 pelo Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Bispo de Leiria." As Carmelitas de Coimbra relatam uma história poderosa sobre como Lúcia obteve a cera para selar os envelopes. A história é poderosa porque é mais um testemunho de sua obediência, embora não precisemos entrar nela aqui.
Lúcia guardou o texto até que pôde entregá-lo em junho de 1944 ao Bispo José da Silva por intermédio de outro bispo que conhecia, o Bispo Manuel Maria Ferreira da Silva. O envelope foi guardado em um caderno que o Bispo José deveria ler. O Bispo José guardou o texto, mas não o leu, mantendo-o seguro nos arquivos da chancelaria diocesana. Ele colocou o envelope de Lúcia em um maior com sua própria inscrição. O envelope foi retirado uma vez e fotografado para a revista Life em 1948. Uma imagem do texto diante do Bispo da Silva foi publicada com o seguinte texto: "No envelope selado acima jaz uma profecia não divulgada que Lúcia diz ter recebido da Virgem. Apenas Lúcia supostamente sabe que mistério contém. Lúcia espera que a predição se cumpra, mas não permitirá que seja aberto até 1960..."
Colocar a terceira parte do Segredo diante do público com a nota de 1960 aumentou as expectativas. Embora certamente não tenha sido a única publicação que discutiu a terceira parte e 1960, a Life foi uma publicação proeminente no mundo de língua inglesa. Quanto mais o mundo se aproximava de 1960, mais crescia a expectativa de que o texto seria lido. John Haffert, da Blue Army, por exemplo, iniciou até mesmo uma série de programas chamada "Zero 1960", projetada para preparar as pessoas para a esperada leitura da terceira parte.
Apesar da antecipação, é bastante claro que a Virgem disse a Lúcia em 1944 que o texto deveria ser aberto e lido em 1960 pelas duas pessoas que ela especificou. Ser aberto não é o mesmo que ser publicado. Aqui, os fatos começam a ficar um pouco obscuros e tentaremos fornecer alguma clareza no próximo artigo.
📎 Fonte original: Onepeterfive
