Em um artigo denso e poético, o autor reflete sobre a verdadeira revolução cristã — a descida humilde de Cristo — contrastando-a com a falsa revolução que, sob o pretexto de reforma, teria roubado a liturgia tradicional da Igreja, substituindo o sacrifício pelo espetáculo.
“Voilà pourquoi je m’appelle Révolution, c’est-à-dire renversement, parce que je mets en haut ce qui, selon les lois éternelles, doit être en bas, et en bas ce qui doit être en haut”. Eis por que me chamo Revolução, isto é, subversão: porque coloco no alto quem, segundo as leis eternas, deveria estar embaixo; e ponho embaixo quem deveria estar no alto. — Mons. Jean-Joseph Gaume, A Revolução, pesquisas históricas sobre a origem e a propagação do mal na Europa desde o Renascimento até nossos dias, Primeira parte, Revolução Francesa, Paris, Gaume Frères, 1856, Capítulo primeiro, Da Revolução.
“E nós cremos no amor”. — I São João, IV, 16. “Transmiti o que também recebi”. — I Coríntios, XI, 23.
Do Saltimbanco de Nossa Senhora, que terminou de escrever mais ou menos esta maldestra acrobacia no dia em que, tantos anos antes, Ela quis se fazer surpreender pela terceira vez sobre um carvalho, lá onde apenas três pequeninos podiam olhar, escancarando-lhes a porta entreaberta de Sua casa celeste para contemplar o segredo imaculado e afiado — doloroso e glorioso — de Seu Coração.
À maneira de um ladrão, assomei-me à porta da igreja paroquial. Mas os dois olhos — como duas pernas — realizaram algo oposto a um arrombamento doméstico, ou seja, uma estranha passagem de cabeça para baixo… Magnificat! Emolduradas pela porta aberta, estavam, com um ar de grande serenidade, véus femininos alvos em fila: atravessavam o presbitério até o altar-mor e até os pés do Tabernáculo, ali onde, ladeado pelo ouro do Diácono e do Subdiácono em tunicelas, stabat o Antístite junto ao faldistório. O fim ou o final de uma longa cauda de 63. Quase um salmo que termina em Glória. Com o crisma, a tríplice bênção, o tapinha. O tapa de Jesus Cristo. E a venda branca. Como um sudário resplandecente no alto de uma das torres do paraíso… “Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem dia e noite no seu templo; e aquele que está sentado no trono estenderá sobre eles a sua tenda. Não terão mais fome, nem sede; não cairá sobre eles o sol, nem calor algum; porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e os conduzirá às fontes das águas da vida; e Deus enxugará toda lágrima de seus olhos”.
E se um trad-integrista na Paróquia pareceria à primeira vista um intruso em flagrante violação de domicílio, bem, que dizer de uma legião de lefebvrianos em pompa magna guiada por Sacerdotes e Bispo Auxiliar da Fraternidade em igreja diocesana para crismar e oficiar? E não obstante o inicialmente negado, contudo conturbado e in extremis concedido e grato nullaosta das autoridades eclesiásticas — Deo gratias! — aquele ideal resquício de invasão doméstica podia teimosamente permanecer.
Até que, do quadro da entrada, aquela violação caseira se conectou a outras ideias opostas à de crime. Precisamente à imagem do Papai Noel que desce pela chaminé. Porque através deste túnel estrelado, Santa Claus — o pujante Bispo São Nicolau de Bari — se empenha em custodiar o vínculo parental entre o céu e a casa. Esta porta de frente… de frente para o universo! E ao Papai Noel é permitido transpassar e transgredir — à maneira de um ladrão — porque onde ele passa, aumentam os brinquedos. Todo roubo, ao contrário, é um roubo de brinquedos. Eis por que é realmente errado roubar. Os infelizes filhos dos homens e a pobre gente pequena do mundo consideram suas vaidades como seu pobre pequeno orgulho. À semelhança de uma criança com seu brinquedo. Não o útil, mas o supérfluo. Nem mesmo Deus, quando se mostra a nós perfeitamente pobre, nos dispensa da celebração simbólica de Sua glória, tal como representada pela liturgia. Esplendor gratuito, desperdício delicado, mais necessário que o útil. Liturgia que, mesmo em seu incessante atuar, permanece por excelência uma operação contemplativa, de uma delicadeza e de uma gravidade que tornam, mais que arriscada, mortal toda modificação arbitrária. Toda substituição. Ou verdadeiro roubo.
Eis por que, ao contrário, assomar-se naquele túnel e contemplar a explosão silenciosa do altar-mor usado não como fundo teatral da mesa quente, mas como altar do Sacrifício, foi uma espécie de revolução. Virar o mundo e a si mesmo de cabeça para baixo até o lugar onde as árvores e os homens estão pendurados de cabeça para baixo em direção ao céu. Retornar ao lugar santo e feliz, celestial, incrível de onde partimos. Desprezar o mundo sob os pés para fazê-lo girar como uma mó de moinho. Stat crux dum volvitur orbis. Eis que tipo de revolução operou Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Mas não é Satã o pai da revolução?”, objetar-se-á justamente. Qual será, portanto, a diferença entre Cristo e Satã? “Então, o quê”, perguntou Turnbull, muito lentamente, enquanto colhia suavemente uma flor, “qual é a diferença entre Cristo e Satã?”. “É muito simples”, respondeu o montanhês. “Cristo desceu ao inferno; Satã caiu nele”. “Faz muita diferença?”, perguntou o livre-pensador. “Faz toda a diferença”, disse o outro. “Um deles queria subir e desceu; o outro queria descer e subiu. Um deus pode ser humilde, um demônio só pode ser humilhado”.
Nosso Senhor Jesus Cristo quis descer. Até os infernos. Mas antes de tudo, do céu. Assim, na solene profissão de fé, após as palavras “Qui propter nos homines, et propter nostram salutem descendit de caelis”, os fiéis se ajoelham. “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine: et homo factus est”. Ajoelhamo-nos, pois. Similarmente ao último Evangelho ao final da Missa. “Et Verbum caro factum est”. E descemos como o Verbo. “Quando Deus recuou a eternidade e era jovem, / Antigo de Dias, tornado pequeno para vossa alegria / (Como sob o arco baixo a terra é brilhante) / Espreitou-vos, porta do céu — e viu a terra”. De joelhos, quase com a mesma humildade e a mesma cavalaria com que o guarda e pai dos virgens, São José, tomou consigo sua humilde e alta, celeste Consorte. “Estrela de sua manhã; aquela estrela não caída / Na estranha reviravolta estrelada do espaço / Quando terra e céu trocaram de lugar por uma hora / E o céu olhou para cima num rosto humano”. Quase com a mesma humildade e cavalaria com que o Espírito Santo escreveu o decreto divino para pedir a mão da Bem-aventurada Sempre Virgem Maria e com o mesmo ímpeto vivificante com que enfim a pediu no vento bom das asas do Arcanjo Gabriel. “No teu ventre reacendeu-se o amor, / por cujo calor na eterna paz / assim germinou esta flor”. A rosa imortal. Assim, “dos ossos dos mártires / migalhas de gozo / cresce / a raiz de Jessé / desabrocha no cálice ardente / e na branca lua / cruzada de sangue e / estandarte / que, erguendo-se, lhe quebra os joelhos”.
De fato, “pronunciadas as palavras da Consagração, o sacerdote se genuflete e adora a Hóstia santa. A rubrica diz ‘statim — subito’; não deve passar nenhum intervalo, porque o pão desapareceu, não restando dele senão as espécies, as aparências, para dar lugar ao Senhor; por isso é o próprio Senhor a quem o sacerdote adora”. “Falcoeiro do Céu / sobre cuja mão erguida / mergulha o eterno Predador / ávido de prisão…” Até que ponto o Verbo desce, vira a Si mesmo de cabeça para baixo e se esvazia! “Tais são as palavras da Consagração do vinho que têm um efeito tão importante, pois constituem, com as palavras da Consagração do pão, o próprio ato do Sacrifício. […] Terrível Sacrifício, o Sacrifício cristão, que nos transporta ao Calvário e nos faz ver que é a justiça de Deus que quis uma tal Vítima!”. “Onde mais do que Melquisedeque / Está morto e nunca morre”. Lá onde são feitas as trevas e a Vítima está pendurada. “Os homens dizem que o sol escureceu: contudo eu pensei / Que brilhava intensamente, mesmo no Calvário / E ele, que pendia na árvore torturante / Ouviu todos os grilos cantando e estava alegre”. Onde está o gigante secreto dos cristãos. O “calor” daquele prazer do qual os orgulhosos se excluem, aquela satisfação que não apenas tem a ver com a humilhação, mas que é acerca da humilhação. Ou melhor, aquela última inversão espiritual em que a completa humilhação se torna completa beatitude. A alegria dos gigantes. A perfeita letícia.
Por isso Deus, Antigo de Dias, moveu para trás a eternidade até a infância e se fez pequeno; “plantou os céus, isto é, a divindade, na terra da nossa humanidade e fundou a terra da nossa humanidade no céu, isto é, a estabeleceu ali para sempre”. Talvez por isso venha vontade de prostrar-se por terra, à maneira do ministro no segundo Confiteor, antes da apresentação da hóstia santa e de aproximar-se da Comunhão. De trocar o próprio coração de filho pródigo pelo d’Aquela que é apenas Mãe de misericórdia. Cair de joelhos diante do Coração do Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Para descobrir com lágrimas nos olhos — e somente em tal humilhação, de joelhos e abrindo a boca — que é o Rei crucificado e glorioso que, no Sacerdote, está passando a servir os servos. É o Sacratíssimo Coração de Nosso Senhor que, na realidade, se abaixa tanto a ponto de ser consumido por um coração miserrimo. É Nossa Senhora que concede então o Seu Coração Imaculado a um coração demasiado impuro. Que aventura pode acontecer estando assomado à maneira de um ladrão a uma tal porta, no enquadramento em que finalmente todas as coisas estão em seu lugar. Estando, em certo sentido místico, do outro lado das coisas, ele vê as próprias coisas saírem do divino da maneira como as crianças saem de uma casa familiar e aceita, em vez de encontrá-las quando já saíram, como faz a maioria de nós. Porque não nos é dada apenas uma chave, mas uma porta. A Porta do Céu. Da casa da qual se fugiu para poder reencontrá-la. Uma morada com seu jardim. O jardim de Deus. Ou o Paraíso.
Não deveria emoldurar a eternidade cada porta das Paróquias do orbe? Contudo, assim não é. Um trágico roubo foi cometido. Não a intromissão do Papai Noel que multiplica os brinquedos. Ao contrário, o injusto e tremendo roubo de brinquedos em detrimento dos pequenos. “O novo Ordo foi promulgado para substituir o antigo, após madura deliberação, em decorrência das solicitações do Concílio Vaticano II”. Com uma analogia e uma hermenêutica impossível da continuidade que são, na verdade, uma subversão revolucionária. Da Revolução que desta vez tem como pai o demônio, cujo fumo entrou no templo de Deus. “Não diferentemente, nosso santo Predecessor Pio V tornara obrigatório o Missal reformado sob sua autoridade, em seguida ao Concílio de Trento”. Calando as origens apostólico-patrísticas da Missa Tridentina. Substituindo a única divina liturgia do Sacrifício de Cristo. Tirando a Cruz e, portanto, a glória que vem da imitação de Cristo que, por amor imaculado, quis encarnar-se no seio da humílima Bem-aventurada Sempre Virgem Maria — ó admirável e incompreensível dependência inefável de um Deus! — e, por amor seráfico, quis sofrer a paixão — como vilíssimo servo em profusão de caridade para que o homem tivesse a prova infinita do seu amor —, aventurosa e viva humildade divina que deixa o exemplo da alegria e da perfeita letícia de estar pendurado. “Meu Deus! Meu Deus! Não és tu o Deus do céu e da terra, igual em tudo e por tudo ao Pai, que te humilhas a ponto de perder quase as feições de…”
📎 Fonte original: Radiospada
