Em entrevista à RaiNews, o teólogo Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, afirma que o rito tridentino não tem mais cidadania na Igreja Católica após a Traditionis Custodes e que o segundo cisma lefebvriano comprova o fracasso de 40 anos de concessões. Apesar de suas ideias opostas às nossas, Grillo expõe com clareza as contradições do mundo conservador moderado e tradicionalista.
Uma premissa importante. As ideias de Grillo – professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo – situam-se no oposto das nossas. Contudo, no mal explícito e a seu modo coerente, às vezes se pode encontrar uma clareza que em certos pântanos não é rastreável: também por isso, ao reportar esta sua entrevista com P. Mele da RaiNews, deixamos de lado a primeira parte, mais densa de extravagâncias e erros. Não faltam – e graves, basta pensar no uso cômico da palavra cisma – também em seguida, mas, quase como o relógio quebrado que duas vezes ao dia marca a hora exata, o autor indica com acidental pontualidade as contradições e os destinos do mundo do meio conservador moderado e tradicionalista a placas alternadas. Um diagnóstico impiedoso, certo, mas lúcido. A ele, como sempre, é preciso juntar o estudo necessário para compreender em profundidade e sem desânimo a crise eclesial e social em curso. Para isso, bem mais proveitosamente, remetemos a: "Parole chiare sulla Chiesa", "Golpe nella Chiesa", "Buona filosofia e contro-storia filosofica. Dall'antichità pagana ad oggi", "La rivoluzione guardata negli occhi. Un libro che spiega il passato e racconta il futuro", "Magistero Politico – Insegnamenti papali sulla politica per l'instaurazione di un ordine cristiano", "L'illusione liberale", "CREDERE, SPERARE, COMBATTERE" e outros volumes. Os destaques em negrito são nossos.
Com o Summorum Pontificum, a coexistência das duas formas do rito romano foi declarada plenamente compatível. Sobre quais fundamentos teológicos se baseava aquela decisão, e quais foram, a seu juízo, as consequências práticas? "Na realidade, este modo de raciocinar permanece extremamente débil, para não dizer marcado por aquela imprópria cismática que o caracterizou em Lefebvre. Se se fez uma reforma (da Vigília Pascal, ou do rito da missa ou do rito da penitência) e se diz que é possível celebrar estas liturgias com os ritos anteriores à reforma, é evidente que deste modo se torna marginal e supérflua não só a reforma litúrgica, mas o próprio Concílio Vaticano II."
Nas últimas décadas, nasceram e foram reconhecidos diversos institutos que identificam na celebração segundo o rito antigo o seu carisma. Como se explica esta escolha, e que problema coloca hoje? "Esta dinâmica começou já antes de 1988, mas depois de 88 e sobretudo depois de 2007 se potenciou muito. O problema, teológico e institucional, é representado pela possibilidade de reconhecer o uso do rito tridentino como um 'valor' e um 'carisma'. Isto era possível até que Summorum Pontificum de fato equiparava os dois ritos. Mas desde que SP foi abrogado por Traditionis Custodes, a coisa se tornou bastante problemática: seja porque não existe mais uma 'forma extraordinária do rito romano', seja porque parece contraditório afirmar uma única 'lex orandi' e promover, institucionalmente, associações que a negam. A coisa se tornou ainda mais urgente depois de 1º de julho."
Depois de 1º de julho. O que demonstra, no mérito, o segundo cisma lefebvriano? É o fracasso de uma estratégia pastoral ou a confirmação de uma diagnose teológica? "Eu diria que ambas as leituras são legítimas. O fato de que todas as concessões (rito tridentino, remissão das excomunhões, protocolo de entendimento sobre o Vaticano II) tenham gerado uma nova excomunhão diz que o trabalho de 40 anos não removeu a questão. Por outro lado, precisamente este resultado pôs em luz a debilidade das palavras teológicas e das ações institucionais que tentaram tornar 'inócuo' o que era, ao contrário, perigoso."
Uma parte do mundo católico sustenta que, precisamente agora, alargar os espaços para o rito antigo serviria para evitar ulteriores fraturas. Por que considera que este caminho não é percorrível? E que resposta se pode dar aos fiéis que a ele estão ligados de boa fé, sem intenções polêmicas contra o Concílio? "Aqui se deve ser muito claro: o rito velho, o rito tridentino, não tem mais nenhuma cidadania na Igreja Católica, depois de 2021. Se não mediante exceções, sobre cuja oportunidade precisamente o cisma deve fazer refletir a todos. Estar ligado de boa fé ao rito tridentino não é possível: se te ligas a uma forma que o Concílio Vaticano II quis reformar, tomas uma posição de conflito com a igreja romana. Sobre isto não há mais nenhuma dúvida. Creio, todavia, que se devam respeitar as sensibilidades diversas: estas podem ser totalmente de boa fé. Por isso o uso do Novus Ordo, ou seja, do rito que brotou da reforma litúrgica, pode ser diferenciado, seletivo e eletivo. Enquanto o rito tridentino não tem alternativas, se não marginais, o rito da reforma pede que cada comunidade o reconstrua com escolhas próprias: de orações, de gestos, de sequências. Neste sentido é possível respeitar diversas sensibilidades no uso do mesmo Ordo ritual."
Traditionis Custodes restabeleceu o princípio da única lex orandi, mantendo porém um regime de exceções. O que deveria ser feito agora? E que espaço resta, no percurso ainda aberto da reforma litúrgica, para a herança tridentina? "Precisamente isto hoje deve ser superado: depois de 50 anos da Reforma litúrgica o único Ordo vincula a todos: nenhuma exceção deverá ser possível. Obviamente isto deverá ser realizado com um mínimo de gradualidade, mas todas as comunidades, os institutos, as paróquias, as dioceses deverão ter em comum o mesmo rito, do qual poderão valorizar, justamente, aspectos e sensibilidades diversas."
O que gostaria que restasse, desta estação difícil, como aquisição duradoura para a Igreja? "Gostaria de dizer assim: com a liturgia não se brinca. Percebemos, nestas décadas, que a consciência da natureza de 'culmen et fons' da ação ritual foi muitas vezes subestimada. Pudemos ouvir, também de homens e de mulheres com grandes responsabilidades, leituras redutivas da liturgia, em que tudo era reduzido ao gosto, ao apego, à nostalgia. Conseguir entender que a profundidade teológica, eclesiológica e espiritual começa e termina no plano ritual, significa sair da ideia de que, no plano do rito, podemos nos confiar a um arbítrio do sentimento, do projeto e da improvisação. Conhecemos dois erros especulares, ambos ligados a uma visão 'funcional' da liturgia. Tanto a embalsamação do rito tridentino, quanto a funcionalização do Novus Ordo, devem ser superadas. Creio que um trabalho comum sobre o único rito compartilhado poderá levar todos a uma experiência mais autêntica, também através do respeito pelas 'outras leituras' que do mesmo rito a Reforma litúrgica quis permitir e até recomendar."
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📎 Fonte original: Radiospada
