O relato do Dilúvio de Noé, conforme apresentado no livro do Gênesis, não se presta a uma leitura reduzida à simples alternativa entre evento global literal e mito puramente simbólico. Na verdade, ele se situa na encruzilhada de diferentes níveis de análise que não coincidem entre si: o nível doutrinal, que concerne ao que a fé católica exige como vinculante; o nível exegético, que trata do sentido do texto em seu contexto linguístico e cultural; o nível histórico-comparativo, que confronta as tradições antigas; e, finalmente, o nível científico, que reconstrói a história da vida e das populações humanas por meio de modelos indiretos. Seguindo a abordagem metodológica já aplicada à questão do monogenismo, torna-se essencial distinguir entre o que é logicamente possível, o que é empiricamente favorecido e o que é teologicamente vinculado.
Um elemento relevante para contextualizar o relato bíblico é a presença difundida de narrativas de tipo diluvial ou catastrófico em muitas culturas antigas e não semíticas. Ao lado da tradição bíblica, encontram-se relatos mesopotâmicos como o de Utnapishtim na Epopeia de Gilgamesh, versões gregas como o mito de Deucalião, tradições indianas ligadas a Manu e numerosas variantes em contextos americanos, oceânicos e africanos. Essa difusão sugere que experiências catastróficas relacionadas à água ou a eventos ambientais extremos deixaram traços profundos na memória humana.
No pensamento católico pré-conciliar, conforme emerge das encíclicas de Leão XIII e Pio XII – em particular Providentissimus Deus e Divino Afflante Spiritu – o ponto central não é a construção de uma cronologia detalhada do Gênesis, mas a salvaguarda de alguns núcleos essenciais. A Catholic Encyclopedia, embora não seja um documento magisterial, reflete utilmente o estado da reflexão exegética católica da época. Os núcleos vinculantes incluem a historicidade de Noé, a realidade de um juízo divino sobre a humanidade pecadora, a salvação concreta através da arca e a continuidade genealógica da humanidade posterior. Esses pontos não são negociáveis no quadro pré-conciliar: reduzir a arca a puro símbolo ou Noé a figura puramente alegórica não seria compatível com a doutrina da época. Dentro desses vínculos, contudo, não é definida de modo dogmático a escala geográfica do evento, sua modalidade física, a estrutura demográfica global da humanidade precedente ou a taxonomia dos animais envolvidos.
Dentro do espaço interpretativo aberto pelo quadro anterior, podem-se distinguir diferentes famílias de hipóteses relativas ao Dilúvio, que diferem quanto à escala geográfica, à estrutura demográfica pressuposta e ao grau de integração com os conhecimentos científicos atualmente prevalentes. A doutrina pré-conciliar não vincula os fatos de Noé apenas ao Homo sapiens no sentido taxonômico atual. A humanidade teologicamente relevante – aquela dotada de alma racional e destinatária do juízo divino – poderia identificar-se com um conjunto mais antigo e mais amplo, incluindo formas hoje classificadas como Homo erectus ou Homo neanderthalensis, ou um ancestral comum dessas linhagens e dos sapiens ainda não identificado pela pesquisa paleontológica. Esse espaço é aberto pelo fato de tais formas mostrarem capacidades cognitivas, expressivas e organizativas tais que tornam cada vez menos nítida sua distinção do homem moderno, e de que os limites entre as classificações biológicas permanecem objeto de discussão científica.
A primeira hipótese é a de um dilúvio global em sentido geofísico: um evento que cobre toda a superfície terrestre e destrói toda a humanidade, exceto Noé e sua família. Ela tem a vantagem de aderir à máxima proximidade literal com o texto e de não exigir mediações interpretativas sobre a escala do evento. As dificuldades – geológicas, paleontológicas, biogeográficas – que hoje parece apresentar não eram percebidas como tais por muitos séculos, o que explica por que permaneceu a leitura dominante até a idade moderna. Uma segunda possibilidade é a de um dilúvio regional, tipicamente situado no Antigo Oriente Próximo, acompanhado da ideia de que a humanidade ainda estava substancialmente concentrada nessa área. Nesse caso, a universalidade do juízo diz respeito a todos os homens existentes, mas não exige uma cobertura física global. O dado comparativo das tradições diluviais mesopotâmicas adquire aqui particular relevo: a proximidade entre o relato bíblico e o de Utnapishtim sugere um contexto cultural compartilhado que poderia remeter a um evento catastrófico localizado, mas percebido como total por seus testemunhos.
Uma variante mais articulada admite uma maior dispersão da humanidade e hipotetiza que o dilúvio tenha sido acompanhado por efeitos indiretos ou concomitantes – colapsos ambientais, crises demográficas, eventos destrutivos locais – que, no mesmo período, tenham levado ao desaparecimento das populações humanas fora da região diretamente atingida. Essa solução amplia o campo das causas sem modificar o núcleo teológico da universalidade do juízo, ao custo, porém, de exigir uma convergência de eventos que a só narração bíblica não descreve. Uma hipótese adicional é a da contração progressiva da humanidade ao longo do tempo. Dinâmicas de extinção local, migração e substituição teriam progressivamente reduzido a presença humana até um núcleo residual no tempo de Noé. O Dilúvio não interrompeu uma humanidade plenamente dispersa, mas sim um último reduto demográfico, enquanto as demais populações já haviam desaparecido por causas naturais ou pré-diluvianas.
