Havia grande expectativa em relação à primeira encíclica de Prevost: os progressistas de vários matizes esperavam a confirmação da absoluta continuidade doutrinária, pastoral e ideológica do novo pontífice em relação ao seu predecessor, enquanto conservadores, e até mesmo alguns tradicionalistas, alimentavam a ilusão de que Leão pudesse oferecer algum vislumbre, ainda que moderado e prudente, de ortodoxia e de necessário conservadorismo. Ilusões mal colocadas, estas últimas: a Magnifica Humanitas nos mostra um papa alinhado com os predecessores conciliares e pós-conciliares e, sobretudo, com Bergoglio, citado muitas e muitas vezes para assegurar a todos os fãs órfãos do predecessor a absoluta identidade doutrinária e ideológica entre os dois pontífices.
Antes de qualquer análise do documento, é necessário colocar uma questão de mérito, já levantada por outros observadores: com a profunda crise da Igreja, com a apostasia latente e manifesta que a aflige, com uma 'sinodalidade' que empurra ao cisma inteiras Conferências Episcopais, com as práticas anti-humanas agora desenfreadas e santificadas pelo mundo como aborto, eutanásia, útero de aluguel, com o ataque à família em curso e infelizmente vitorioso, com a exaltação agora generalizada da sodomia, com o genderismo imposto até nas escolas, era prioritário que o papa se ocupasse, querendo falar de Doutrina Social, de Inteligência Artificial? Uma pergunta não retórica, uma dúvida lícita, senão obrigatória.
Além disso, a IA é um assunto escorregadio, porque matéria ainda fluidíssima, em devir, com resultados, positivos e/ou negativos, ainda indeterminados. Quando o Magistério se aventura em terrenos científicos ou pretensamente tais, o risco de análises errôneas, previsões equivocadas, erros 'técnicos' é muito elevado. Demonstram-no os precedentes da Laudato Si' e da subsequente Laudate Deum, verdadeiros manifestos bergoglianos de um ecologismo extremo com aspectos também obscuros (lembram-se da Pachamama?) baseado em premissas anticientíficas e não poucas falsidades, como a de um aquecimento global de origem antrópica não comprovado. Documentaram-no muito bem os professores Franco Battaglia e Uberto Crescenti, demonstrando e denunciando a 'pletora de erros contidos em ambas as intervenções'.
Como observação preliminar, é indubitável que a primeira encíclica de Prevost seja imbuída de um profundo antropocentrismo, na esteira daquele (até proclamado e reivindicado) do Concílio, que é citado e exaltado muitas e muitas vezes. E isso desde o título, imbuído de um arrogante orgulho, de uma hybris que beira o titanismo. Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo como presença e peso lexical no texto, é marginal. Falando do Mal, é totalmente ignorado o Pecado Original e seus efeitos. Seriam apreciáveis as linhas finais dedicadas a Nossa Senhora, embora não isentas de extravagâncias, como definir Maria uma 'rapariga pobre': não nos consta que São Joaquim, ancião sacerdote, e Sant'Ana fossem miseráveis. Além disso, lembramos que Prevost é o mesmo papa que avalizou a gravíssima ofensa do Cardeal 'Tucho' Fernández, que proibiu atribuir a Nossa Senhora os títulos tradicionais, usados por séculos por Papas, santos e teólogos, de 'Maria Corredentora' e 'Maria Dispensadora de Todas as Graças'.
Toda a encíclica é profundamente informada pelo aparato ideológico e pelos novos 'lugares teológicos' impostos pelo Concílio e pelo pós-Concílio, especialmente após a destrutiva aceleração bergogliana. A ideologia de fundo aparece diretamente condicionada pela teologia da libertação, várias vezes condenada. Magnifica Humanitas é politicamente sobreexposta em sentido ultraprogressista, pauperista, imigracionista, até explicitamente socialista. Todo o documento é profundamente imbuído do mais surrado progressismo, com temas, teses e linguagens tomados servilmente, justamente, da teologia da libertação. Em muitos pontos do texto emergem afirmações claramente inspiradas num cripto-marxismo, por vezes nem 'cripto', mas manifesto e agressivo. Triunfa um pesado pauperismo encontrável no pior terceiro-mundismo.
Também a linguagem e a terminologia utilizadas são significativas daquele neo-ecclesialês sem qualquer fundamento teológico e doutrinal que impera nos documentos vaticanos, nas intermináveis e bonachonas prédicas dos sacerdotes modernos, nos ilegíveis jornalzinhos paroquiais. Aquele linguajar falseador já estigmatizado, com suave sarcasmo, pelo católico Marco Manfredini, no seu recomendável Pequeno Dicionário Semissério da Linguagem Eclesialmente Correta. Eis que Magnifica Humanitas é uma exemplar silogeu destes 'novos conceitos' e destas 'palavras novas', de significado quase sempre pervertente. Uma das mais abusadas, entre estas palavras no documento, é certamente 'discernimento', repetida, com o infinito 'discernir', dezenas de vezes. Um tique linguístico irritantíssimo, como o famigerado 'ou seja' sessentista. Puro neo-ecclesialês, uma palavra desusada ressuscitada por Bergoglio provavelmente da casuística jesuítica, e de que no Dicionário de Manfredini se diz: 'Entre os artigos de quinquilharia religiosa é o novo best-seller'. Obviamente é um cavalo de Troia: dentro do discernimento escondem-se relativismo, latitudinarismo, recusa da moral e da Doutrina estabelecida para sempre.
