O primeiro Papa a falar perante as Cortes Gerais da Espanha, Leão XIV, proferiu um discurso que merece ser celebrado em seus pontos essenciais. Diante de um hemiciclo que aprovou leis de aborto e eutanásia, o Pontífice recordou aos legisladores que a dignidade da pessoa precede toda concessão do Estado e não pode ficar à mercê das maiorias. Defendeu a vida do não nascido, do idoso e do doente, chamou a família de fundamento da comunidade e reivindicou o direito primário e inalienável dos pais de educar os filhos, além de reclamar liberdade religiosa e de consciência frente aos que querem relegar a fé ao silêncio. Foram palavras verdadeiras e importantes, ditas onde mais custa dizê-las.
Sobre a vida, o Papa foi doutrinalmente nítido. Afirmou que toda vida humana deve ser reconhecida e custodiada desde a concepção até o ocaso natural, e que sua defesa não é questão parcial nem interesse confessional, mas meta de civilização. Nomeou expressamente o ainda não nascido. No entanto, observa-se que o Papa enunciou o princípio com firmeza, mas parou antes de aplicá-lo concretamente: não nomeou o aborto, não mencionou as leis espanholas que permitem a eliminação legal de inocentes e não colocou os deputados diante da responsabilidade política de tê-las votado ou sustentado. Falou do não nascido em plano geral e quase atemporal, como quem descreve uma verdade universal sem apontar ninguém na sala. É uma opção legítima, cortês de quem é hóspede do Estado, mas contrasta com o que veio depois.
Em outros assuntos mais discutíveis e opináveis, o tom não foi menos firme; por vezes foi até mais concreto. Sobre o rearmamento europeu, questão em intenso debate político na Espanha e na União Europeia, o Papa não se limitou ao princípio: tomou posição e disse que preocupa que se apresente o rearmamento como resposta quase inevitável. Sobre a migração, desceu ao terreno operativo e reclamou vias seguras e legais, resposta coordenada, solidária e eficaz. Entre as causas do desenraizamento, enumerou falta de paz, desigualdades econômicas e efeitos da crise climática. Invocou direito internacional, o lema da União Europeia e boa parte do repertório dos organismos multilaterais. Tudo com a mesma solenidade pontifícia com que, minutos antes, falara da vida.
O problema não é que o Papa fale de migrantes, paz ou clima. A questão é que um discurso pontifício deve distinguir com precisão entre doutrina católica vinculante, princípios morais permanentes, aplicações prudenciais e opiniões discutíveis. Quando tudo é pronunciado com a mesma gravidade, enfraquece-se aquilo que mais precisa de clareza: a vida do não nascido, a família, a liberdade, o bem comum. A firmeza repartida por igual não acrescenta autoridade ao opinável; rouba nitidez ao essencial. O Papa tem autoridade grande para ensinar fé e moral, mas não a tem do mesmo modo para erigir seus juízos prudenciais sobre clima, migrações, defesa ou política internacional em uma doutrina prática incuestionável. São coisas de rango distinto, que exigem obediências distintas do ouvinte.
Ao fiel que escuta, não move a rebeldia, mas o amor à clareza, quando vê revestido com o peso simbólico do pontificado aquilo que não pertence ao depósito da fé nem possui sua certeza moral. Essa confusão não fortalece a Igreja: a debilita. Revestir uma opinião prudencial com a autoridade do Sucessor de Pedro não lhe acrescenta verdade; rouba nitidez a essa autoridade. E uma autoridade menos nítida perde força exatamente onde mais deveria soar com clareza e sem tremor: ante a vida ameaçada, a família desfigurada, o direito dos pais a educar, a consciência que o poder pretende administrar.
Nada disso torna o discurso um mau discurso. Teve passagens altas e verdades ditas com valentia onde dói dizê-las. O que se pode reclamar não é menos doutrina, mas mais precisão. A Igreja presta seu melhor serviço ao mundo quando fala do que recebeu, e não quando adota, sem suficiente distância crítica, o vocabulário político do momento. Sua tarefa — a única que ninguém mais cumprirá por ela — é dizer com clareza o que o mundo não quer ouvir: que o não nascido tem direito a viver, que a família não é construção administrativa, que os pais não são delegados educativos do Estado, que a consciência não pertence ao poder e que a fé não deve ser arrinconada ao silêncio. Isso foi, em sua melhor parte, o que Leão XIV disse nas Cortes. Oxalá o tivesse dito sem misturar com todo o resto.
