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O gênio de São Jerônimo: Doutor da Igreja, tradutor da Vulgata e defensor da fé

30 de setembro de 2026 às 22:50

O gênio de São Jerônimo: Doutor da Igreja, tradutor da Vulgata e defensor da fé

Neste 30 de setembro, a Igreja celebra a memória litúrgica de São Jerônimo de Estridão (349-420), Doutor e Padre da Igreja latina. Conhecido por sua tradução da Bíblia para o latim, a Vulgata, e por seu temperamento volcânico, Jerônimo foi um gigante intelectual cuja vida girou em torno do amor apaixonado a Cristo e à Sagrada Escritura. Neste artigo, exploramos quatro aspectos de sua vida: seu gênio, sua tradução da Bíblia e a revisão do saltério pelo cardeal Bea sob Pio XII, sua relação com o sacerdócio e sua devoção às virgens consagradas.

Neste 30 de setembro, a Igreja celebra a memória litúrgica de São Jerônimo de Estridão (349-420), Doutor e Padre da Igreja latina. Conhecido por sua tradução da Bíblia para o latim, a Vulgata, e por seu temperamento volcânico, Jerônimo foi um gigante intelectual cuja vida girou em torno do amor apaixonado a Cristo e à Sagrada Escritura. Neste artigo, exploramos quatro aspectos de sua vida: seu gênio, sua tradução da Bíblia e a revisão do saltério pelo cardeal Bea sob Pio XII, sua relação com o sacerdócio e sua devoção às virgens consagradas.

Hoje, 30 de setembro, a Igreja celebra a memória litúrgica de São Jerônimo de Estridão (349 – 420). É quase tudo o que pode ter sido dito já deste Doutor e Padre da Igreja latina, junto com Santo Agostinho, Santo Ambrósio de Milão e São Gregório Magno. Jerônimo estudou em Roma, viveu como anacoreta no deserto do Calcis (apenas dois anos, tendo que fugir por causa da heresia ariana); aprendeu com São Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno, dois dos grandes Padres capadócios do século IV; foi secretário do Papa Dâmaso I e professor de Sagrada Escritura para um ilustre grupo de matronas em Roma e, finalmente, monge em Belém. Traduziu a Bíblia para o latim na edição que a Igreja reconheceu oficial durante séculos, a Vulgata, e escreveu comentários a diversos livros bíblicos. Escreveu e recebeu cartas de dezenas de personagens ao longo de sua vida, das quais foram identificadas as 150 que formam seu epistolário. É inesgotável o que se poderia dizer de São Jerônimo, então vamos nos concentrar em quatro questões neste breve escrito – homenagem: 1) seu gênio; 2) sua tradução da Bíblia e a revisão do saltério pelo cardeal Bea sob Pio XII; 3) São Jerônimo e o sacerdócio e 4) São Jerônimo e as virgens consagradas a Cristo. Como se pode ver, não pretendemos seguir uma ordem cronológica. O gênio de São Jerônimo: São Jerônimo foi, nas palavras de Horacio Delàs, personagem do romance El despertar de la Señorita Prim, “um gigante intelectual, um homem de mente prodigiosa, com um temperamento e uma vontade de ferro. Tremendamente estrito consigo mesmo, muito exigente”. Por isso nos referimos ao seu gênio no título deste texto: porque foi um homem de vasta cultura, inteligência e capacidade de trabalho, o que lhe permitiu empreender a titânica tarefa da tradução da Vulgata (que Santo Agostinho lhe reprochou, por se tratar de algo praticamente impossível para um ser humano); e por seu caráter vulcânico, que o levou a entrar em duríssimos debates dialéticos sempre em defesa da Igreja, da sã doutrina e da honra de Deus. Foi um louco por Cristo, que deu tudo por Ele e se deu todo a Ele. Embora muitos considerem hoje que em tempos atuais São Jerônimo não seria canonizado por seu mau gênio, ele é na realidade a prova viva da legitimidade da ira santa, defendida por tantos santos: Santo Tomás de Aquino afirmaria séculos depois que “a falta de paixão da ira também é um vício”, citando um documento atribuído a São João Crisóstomo segundo o qual “peca quem não se enfada quando tem causa”. São Jerônimo sofreu de maneira muito pessoal os ataques contra a Igreja e contra Cristo. São Jerônimo, a Vulgata e a anedota do saltério do cardeal Bea: A vida de São Jerônimo girou em torno do amor apaixonado a Cristo e à Sagrada Escritura: em seu epistolário lemos muitos conselhos relativos a que a Escritura nunca caísse das mãos, que fosse lida cada dia, que da boca do monge só deveriam sair palavras da Bíblia e mais. Em Belém, suas monjas, encabeçadas sucessivamente por Santa Paula e sua filha Eustóquia e por Santa Paulina, neta da primeira, cantavam os salmos em hebraico e lhe pediam explicações sobre os livros bíblicos, razão pela qual escreveu muitos de seus célebres comentários. Estes são uma maravilhosa tessitura da Bíblia como uma unidade entre o Antigo e o Novo Testamento, sempre com Cristo no centro. Nos comentários de São Jerônimo, flui com naturalidade como o Antigo Testamento aponta para o Novo; como no Novo encontra cumprimento o Antigo. Existe na carta 51 do epistolário de São Jerônimo uma potente sentença que sempre se lhe atribui, que curiosamente não é nem o escritor nem o destinatário da epístola, mas foi escrita por Epifânio de Salamina e dirigida a João, bispo de Jerusalém. São Jerônimo apenas a traduziu para o latim e a preservou, e por isso se conserva em seu epistolário. O momento desta carta significa o começo de uma das etapas mais trágicas de sua vida: o origenismo. A admiração de Jerônimo por Orígenes ficaria abalada pela entrada em cena do bispo de Salamina de Chipre, Epifânio, empenhado em proscribir Orígenes e seus ensinamentos, que segundo ele estavam minando a fé de muitos cristãos e até de hierarcas da Igreja. A carta suscitou uma oposição cerrada por parte de João e do monge Rufino contra Epifânio e, por ricochete, contra Jerônimo. Rufino acusou Jerônimo de inexatidão na tradução e todo o assunto chegou até Roma, onde suscitou grande escândalo. A data desta carta é o ano 394 e a frase em questão é “Não tenho eu, Senhor, odiado os que te odeiam, e me consumido por teus inimigos?”. Na versão latina da carta, esta frase, que se lê como “nonne odientes te, Domine, odiui et super inimicos tuos tabescebam?”, pertence na realidade ao salmo 138 (139). É possível que a quem tem por costume rezar a Liturgia das Horas não lhe resulte familiar, e isso se deve a que o parágrafo em que se encontra foi eliminado após a reforma do Breviário posterior ao Concílio Vaticano II. Ou seja, o parágrafo se encontra no Salmo na Sagrada Escritura, mas no Breviário foi eliminado. A carta 51 e o citado parágrafo nos dão também a ocasião de trazer à colação a revisão da tradução do saltério na Vulgata que Pio XII mandou levar a cabo mil e quinhentos anos depois da tradução de São Jerônimo e após quinze séculos em que essa versão havia sido a de uso oficial aprovado pela Santa Igreja Católica. A respeito, o historiador Yves Chiron, em sua biografia sobre Mons. Annibale Bugnini, indica que “a revisão da tradução latina dos salmos era um dos projetos que mais importavam a Pio XII. Como muitos teólogos, exegetas e eruditos de sua época, considerava que a tradução que se utilizava na Igreja —a Vulgata— padecia de demasiadas deficiências. Pronto escreveria: «As obscuridades e os erros desta tradução latina (…) se fizeram, em uma época recente, tanto mais evidentes aos olhos de todos quanto que o conhecimento das línguas antigas, em particular do hebraico, havia avançado muito, que a arte da tradução se havia aperfeiçoado, que as leis da métrica e o ritmo das línguas orientais se haviam estudado mais a fundo e que as regras da crítica textual, como se a chama, se haviam tornado mais claras». Portanto, desejava uma nova tradução «próxima ao texto original e mais fiel». Por isso, desde os primeiros momentos de seu pontificado, encarregou uma nova tradução do saltério. Sem envolver a Comissão Bíblica, confiou a tarefa ao P. Agostino Bea, jesuíta alemão e presidente do Instituto Pontifício Bíblico. Este, assistido por cinco professores de seu Instituto, trabalhou nela entre 1941 e 1944. O resultado não foi uma revisão das versões anteriores, mas uma nova tradução, em latim clássico, do texto hebraico. A nova tradução, Liber Psalmorum, se publicou em 1945. Esta nova tradução latina foi muito criticada. Em particular, La Maison-Dieu, órgão do C.P.L., que lhe dedicou um amplo dossiê intitulado: «Debate sobre o novo saltério». Embora reconhecesse a importância desta audaz iniciativa («Não cabe dúvida de que a publicação de um novo saltério, após uma prática de dezesseis séculos do saltério de São Jerônimo, constitui um acontecimento»), a revista, após vários estudos críticos realizados por diversos beneditinos e dominicanos, considerava que o novo saltério havia se «renovado de forma demasiado radical» e pedia que «não se nos impusesse tal qual». O juízo foi severo: o latim da nova tradução é demasiado clássico, demasiado próximo «à linguagem de Cícero e Horácio» que ao latim da Igreja. Pio XII se sentiu ofendido por estas críticas, e o P. Bea tentou, em um livro, esclarecer o sentido do trabalho da Comissão que havia dirigido e justificar o resultado. Dado o ambiente, em 24 de março de 1945, sem impô-la a toda a Igreja, Pio XII, mediante o motu proprio In cotidianis precibus, havia oferecido esta nova tradução do saltério «a todos aqueles que estão obrigados a recitar cada dia as Horas canônicas» e autorizava que se integrasse e adaptasse ao Breviário Romano. Esta tradução revisada, conhecida mais comumente como o Saltério de Bea, só foi adotada por umas poucas comunidades religiosas ou monásticas, embora se incorporasse às novas edições do breviário que se publicaram. Mas a opinião generalizada sustentava que o Saltério Bea «adauget latinitatem, minuit pietatem» («aumenta a latinidade e diminui a piedade»). Não logrou impor-se e, durante a revisão do breviário, que se levaria a cabo a partir do pontificado de João XXIII, renunciou-se a esta tradução. Muitos séculos antes, os critérios de tradução de São Jerônimo haviam sido muito distintos: “Eu só declaro – diz a Panmáquio na epístola 57 – que (…), nas Escrituras Santas a estrutura mesma das palavras encerra seu mistério” (…). Para que a autoridade de minhas palavras não fique sem apoio nenhum – se bem o único que pretendi provar é que, desde minha juventude, jamais pretendi trasladar as palavras, mas as ideias – podes ler o que sobre o assunto diz o pequeno prefácio ao livro em que se descreve a vida do bem-aventurado Antônio: “A tradução literal de uma língua a outra encobre o sentido. (…). Acabar-se-me-ia o dia se quisesse aduzir os testemunhos de todos os que traduziram segundo o sentido. Baste de momento citar o confessor Hilário, que traduziu do grego ao latim as homilias sobre Jó e muitos tratados sobre os salmos. Hilário não se cingiu à letra dormente nem se torturou com a tradução afetada dos ignorantes, mas, como se disséssemos, com o direito do vencedor captou o sentido e o traspassou a sua língua. Isto não é de estranhar nos outros, isto é, nos homens do século e ainda da Igreja, quando os Setenta intérpretes e os mesmos evangelistas e apóstolos fizeram o mesmo nos livros sagrados. Lemos em Marcos que o Senhor diz: talitha cumi, e imediatamente acrescenta: o que se traduz: menina, a ti te digo, levanta-te. Acusai de mentira ao evangelista porque acrescentou “a ti te digo”, quando em hebraico só está escrito “menina, levanta-te”. Mas acrescentou “a ti te digo” para dar mais ênfase e expressar o sentido da invocação e também do mandato. É evidente, na passagem em que Judas devolve as trinta moedas segundo o narra Mateus, que este texto não se acha absolutamente em Jeremias (como diz o evangelista) e sim em Zacarias, mas com palavras muito diferentes e em uma ordem totalmente distinta. É evidente a diferença entre a tradução dos Setenta e o texto do evangelista. Mas no mesmo texto hebraico, sendo o sentido o mesmo, as palavras estão transtocadas e são quase distintas”. Após numerosos exemplos similares, diz São Jerônimo: “em troca, Áquila, prosélito e tradutor minucioso, que se empenhou em traduzir não só as palavras mas as mesmas etimologias das palavras, com toda razão é rejeitado por nós. Porque quantas coisas há que, corretamente ditas pelos gregos, se nós as traduzimos ao pé da letra não soam em latim; e, pelo contrário, coisas que entre nós agradam, se as traduzimos na mesma ordem, lhes desafinam a eles”. Na tabela inferior podemos observar, como exemplo do dito, em três colunas, a versão em espanhol do parágrafo com o que começávamos esta explicação do salmo 138, 19 – 22 da Bíblia de Jerusalém na primeira coluna; a versão original da Vulgata de São Jerônimo no centro e a revisão do cardeal Bea na terceira. São Jerônimo foi manipulado pelos protestantes e seu princípio da Sola Scriptura, mas ele nunca a separou da Tradição.


📎 Fonte original: Infovaticana

📎 Fonte original: Infovaticana

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