Em 1914, Monsenhor Alessandro Verde, Promotor da Fé da Sagrada Congregação dos Ritos, formulou 24 objeções contra a introdução da causa de canonização de Santa Teresa do Menino Jesus. Suas críticas, longe de serem hostis, revelam uma profunda lucidez sobre a novidade espiritual de Teresinha e forçaram a Igreja a refletir mais profundamente sobre a natureza da santidade. Este artigo reconstrói a verdadeira história do 'advogado do diabo' de Santa Teresinha, sem caricaturas, mostrando como suas objeções foram respondidas e como a própria história acabou por inverter seus argumentos.
Há algo deliciosamente paradoxal nas objeções que, em 1914, formulou Monsenhor Alessandro Verde contra a introdução da causa de Irmã Teresa do Menino Jesus. Quanto mais se leem, mais se percebe que aquele severíssimo jurista romano viu com extraordinária lucidez o que havia de novo em Teresa; só que, no início, contemplou essa novidade a partir de categorias jurídicas que dificilmente poderiam contê-la. Não negou propriamente que fosse santa. Sua dificuldade era outra e, de certo modo, mais interessante: como demonstrar juridicamente a heroicidade de uma vida cuja grandeza consistira precisamente em não parecer grande? Esta é a verdadeira história do chamado 'advogado do diabo' de Santa Teresinha. E convém contá-la sem caricaturas, porque Alessandro Verde não foi um inimigo de Teresa, mas um daqueles homens severos que, sem querer, obrigaram a Igreja a se perguntar com maior profundidade o que é a santidade.
Um fiscal temível diante de uma jovem carmelita descalça
O chamado 'advogado do diabo' era, tecnicamente, o Promotor da Fé da Sagrada Congregação dos Ritos. Seu ofício consistia em submeter as causas de beatificação e canonização a uma verdadeira prova de resistência: apontar lacunas, contradições, testemunhos fracos, possíveis exageros, defeitos processuais e tudo o que pudesse tornar duvidosa uma fama de santidade. Não estava para se deixar comover, mas precisamente para não se deixar comover cedo demais. Alessandro Verde, nascido em 1865, ingressara na Congregação dos Ritos em 1896, fora nomeado subpromotor da Fé em 1897 e Promotor em 1902. Em 1915 chegaria a secretário da Congregação e Pio XI o criaria cardeal em 1925, precisamente o ano da canonização de Teresa. Na correspondência relacionada à causa, era tido como um censor temível. Em 8 de abril de 1914 assinou suas Animadversiones, vinte e cinco páginas de objeções. Formalmente aparecem numeradas de 1 a 23, embora na realidade sejam vinte e quatro, porque a numeração contém dois números 17. Dez dias depois, em 18 de abril, os advogados da causa responderam com um memorial de cinquenta e cinco páginas. Em 9 de junho a Congregação dos Ritos emitiu parecer favorável e, no dia seguinte, Pio X assinou a introdução da causa. Mas seria um erro descartar Verde dizendo simplesmente que Roma não lhe deu atenção. Algumas de suas objeções eram sérias. Precisamente por isso é tão instrutivo observar onde estava sua força e onde estava seu limite.
Uma santa fabricada por um livro?
A objeção fundamental atravessa quase todo o seu escrito: antes de História de uma alma, quem havia visto em Irmã Teresa do Menino Jesus uma santidade extraordinária? Teresa havia morrido com vinte e quatro anos, depois de apenas nove no Carmelo. Não havia feito nada! Boa parte de suas próprias companheiras a considerava uma religiosa boa, doce e piedosa, mas nada espetacular. Mas um ano justo depois de sua morte, apareceu um livro que revelava uma profundidade espiritual insuspeitada e teve uma difusão formidável. Verde anotava os números: dezenas de milhares de exemplares vendidos e, só entre julho de 1909 e julho de 1910, mais de 183.000 imagens solicitadas ao Carmelo, mais dezenas de milhares de lembranças. Alguns testemunhos reconheciam inclusive que se havia feito 'muito barulho' em torno de Teresa e que em certos Carmelos se julgava excessiva a intensidade daquela difusão. A pergunta de Verde era penetrante: estamos diante de uma fama espontânea de santidade ou do extraordinário sucesso editorial de uma autobiografia? No entanto, aqui aparece já o primeiro equívoco. A difusão de uma santidade mediante um livro não demonstra que essa santidade tenha sido produzida pelo livro. Demonstra unicamente que o livro permitiu conhecer o que até então estava escondido. E isso era exatamente o que havia acontecido. Os manuscritos de Teresa não nasceram como um libelo preparado para uma futura canonização. O primeiro manuscrito foi escrito em 1895 por ordem de Madre Inês para o âmbito familiar; o segundo nasceu de um pedido de Maria do Sagrado Coração; o terceiro foi redigido em 1897 por ordem da prioresa, Madre Maria de Gonzaga, quando Teresa estava já gravemente enferma. O processo apostólico conserva expressamente o testemunho de Madre Inês acerca da origem obediencial daqueles textos. É verdade que, em seus últimos meses, Teresa compreendeu que esses escritos poderiam fazer bem depois de sua morte. Mas prever a fecundidade apostólica de um escrito não equivale a escrever uma autobiografia para fabricar para si uma auréola. Entre ambas as coisas existe toda a distância que media entre a vaidade do autor e a consciência espiritual de uma missão. Aqui a história terminou por inverter a objeção de Verde. O que em 1914 podia parecer suspeito — que a santidade de Teresa se conhecesse fundamentalmente graças a seus escritos — acabaria sendo precisamente um dos grandes argumentos para declará-la, em 1997, Doutora da Igreja. João Paulo II afirmaria que naqueles escritos se descobre um 'carisma particular de sabedoria', uma experiência original da graça e uma autêntica 'ciência do amor'. O livro não criou Teresa: tornou-a visível.
'Tudo fica em família'
A segunda grande objeção de Verde dirigia-se contra as testemunhas. Quatro irmãs de sangue de Teresa depunham no processo; três delas — Paulina, Maria e Celina —, mais sua prima Maria, haviam convivido além disso com ela no mesmo Carmelo. Suas declarações haviam sido preparadas cuidadosamente e continham numerosas palavras, recordações e observações acerca de Teresa. Verde suspeitava que aquele conjunto pudesse se tornar uma reconstrução familiar demasiado favorável. A precaução é legítima. Um irmão não é necessariamente uma testemunha falsa, mas tampouco é uma testemunha indiferente. No entanto, o processo era consideravelmente mais amplo que o pequeno círculo das Martin. No processo ordinário foram ouvidas quarenta e oito testemunhas; a edição posterior publicou trinta e sete declarações porque onze se referiam unicamente a milagres. Havia carmelitas, sacerdotes, religiosos e leigos, e algumas declarações nada complacentes ficaram cuidadosamente incorporadas às atas. As irmãs prepararam suas deposições, certamente, mas o fizeram a partir do questionário oficial e naquela documentação apareceram dados francos e até incômodos. Este é um detalhe decisivo: se tivesse existido uma operação destinada simplesmente a fabricar uma Teresa impecável, resulta bastante estranho que tenham chegado até nós, precisamente graças ao processo, tantas observações adversas sobre ela. Uma irmã opinava que Teresa não fazia nada extraordinário; outra a achava pouco útil para o trabalho; outra pensava que era fácil ser santa vivendo rodeada de suas próprias irmãs. Verde recolhe essas frases com escrupulosidade. Mas sua existência demonstra, paradoxalmente, que a documentação não foi limpa até deixar somente incenso. E ainda há algo mais interessante. Madre Maria de Gonzaga, cuja possível reserva diante de Teresa resultava especialmente útil a Verde, deixou testemunhos que dificilmente se encaixam com a tese de uma fama criada unicamente depois por História de uma alma. Em 11 de novembro de 1897, quando o livro ainda não havia aparecido, escrevia ao padre Roulland que a vida de Teresa havia sido 'amor e sacrifício' e que havia sofrido um verdadeiro martírio. No livro de profissões deixaria depois um elogio extraordinário de sua humildade, obediência, caridade, prudência e regularidade. Não existiu unanimidade imediata, mas a santidade não se decide por votação na sala de recreio.
Uma santa sem diretor espiritual
Verde pôs depois o dedo sobre um ponto delicadíssimo: se a santidade de Teresa era essencialmente interior e quase invisível, quem podia garantir esse mundo interior? O testemunho ideal teria sido o do confessor habitual que tivesse conhecido profundamente sua consciência. E esse testemunho faltava. Além disso, Teresa falava de Jesus como seu verdadeiro Diretor e confessava a dificuldade que tivera para encontrar uma direção espiritual estável. Verde via aqui um perigo: uma moça muito jovem que parecia avançar por si mesma em matérias espirituais, elaborando inclusive uma 'pequena via', podia ter confundido inspiração com subjetivismo. Levada a suspeita ao extremo, aparecia inclusive o fantasma do quietismo. Mas Teresa não foi uma autodidata religiosa que tivesse decidido prescindir da Igreja. Teve relação espiritual com o jesuíta Almire Pichon; recebeu do franciscano Alexis Prou, durante o retiro de 1891, a decisiva confirmação que ela descreveria dizendo que a havia lançado 'a toda vela sobre as ondas da confiança e do amor'; consultou confessores e seguiu conselhos concretos, inclusive durante sua terrível provação contra a fé. O próprio padre Pichon declarou posteriormente que Teresa expunha suas dificuldades com sobriedade, sem empenhar-se em impor seu próprio parecer, e que resultava fácil dirigi-la. É uma observação preciosa porque toca exatamente o ponto que Verde considerava problemático. Que Teresa descobrisse interiormente uma via própria não significa que se erigisse em seu próprio magistério. Chega um momento em que os auxílios recebidos de fora não substituem a ação imediata da graça. João da Cruz não aprendeu de um confessor a Llama de amor viva. Teresa de Jesus obedeceu, consultou e padeceu confessores (tão talentosa ela, nunca falou de 'diretores'), mas a experiência que deu origem ao Castelo interior era sua. A direção espiritual discerne a graça; não a fabrica.
O problema mais grave: Teresa testemunhava acerca de Teresa
Talvez fosse a objeção juridicamente mais forte. Se a História de uma alma é a principal fonte para conhecer a heroicidade interior de Teresa, então Teresa se torna a principal testemunha de sua própria causa. E um acusado não pode ser seu próprio juiz, nem um candidato aos altares demonstrar sua santidade mediante um autorretrato. Verde tinha razão em uma coisa: uma autobiografia não pode ser aceita ingenuamente como prova conclusiva daquilo mesmo que seu autor afirma sobre si. Mas daí não se segue que seja inútil. A autobiografia permite conhecer o interior; as testemunhas permitem comprovar se esse interior correspondia à conduta. E aí está precisamente o valor da convergência. Quando Teresa fala de paciência, caridade, renúncia, silêncio diante das humilhações, obediência ou abandono, o processo busca depois o que viram aqueles que conviveram com ela. Não se canoniza o livro isolado da vida; confronta-se o livro com a vida. Resulta especialmente significativo que o processo apostólico conserve testemunhos de religiosas não pertencentes à família Martin que descrevem precisamente aquela igualdade de ânimo, humildade, esquecimento de si e amor de Deus que os manuscritos apresentam desde dentro. Uma religiosa anciã, Irmã Maria Filomena, chegaria a declarar que não acreditava possível possuir menos busca de si mesma e maior igualdade de caráter. A autobiografia não substituía, pois, as testemunhas. Permitia compreender o que as testemunhas haviam visto sem compreender sempre sua profundidade.
O escândalo de uma santidade que não se notava
Aqui Verde chega ao coração da questão. Admite inclusive, em uma das passagens mais impressionantes de suas Animadversiones, que Teresa talvez fosse verdadeiramente santa 'diante de Deus'. Sua dificuldade é que a Igreja precisa de provas. Se toda a sua heroicidade havia ficado escondida no coração, como demonstrá-la? Para Verde, a virtude heroica devia possuir uma grandeza capaz de impor-se aos olhos. Teresa, ao contrário, havia praticado pequenas renúncias, pequenas paciências, pequenas caridades, pequenas humilhações. Nada sem... [o artigo original continua, mas o texto fornecido termina aqui].
📎 Fonte original: Infovaticana
