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A igreja sinodal e os missionários digitais: religião ou antropologia?

3 de outubro de 2026 às 22:19

A igreja sinodal e os missionários digitais: religião ou antropologia?

Em uma análise crítica, a autora questiona a figura dos 'missionários digitais' na Igreja sinodal, argumentando que muitos são mercenários que lucram com a fé e promovem uma mensagem antropocêntrica em vez do Evangelho. O texto traça um histórico da 'nova evangelização' e alerta para o abandono da missão evangelizadora em favor de uma religião antropólatra.

Em uma análise crítica, a autora questiona a figura dos 'missionários digitais' na Igreja sinodal, argumentando que muitos são mercenários que lucram com a fé e promovem uma mensagem antropocêntrica em vez do Evangelho. O texto traça um histórico da 'nova evangelização' e alerta para o abandono da missão evangelizadora em favor de uma religião antropólatra.

Ao longo de mais de noventa tribunas escritas por esta humilde servidora desde 2023, temos tratado em distintas ocasiões dos influencers católicos, agora renomeados pela hierarquia eclesiástica como 'missionários digitais'. Hoje vamos aprofundar alguns aspectos dessa figura eclesial de recente aparição. Um professor que eu admirava muito dizia que sempre devemos declarar de onde falamos, para que o interlocutor possa se situar, além das pretensões de uma quase impossível objetividade. Pois bem, para começar, direi que penso que os influencers católicos são um sinal claro da corrupção doutrinal e mundana em que se fundamenta a atual igreja sinodal. Que são uma espécie de mercenários que só operam como correia de transmissão do que o Papa ou os bispos que podem contratá-los para eventos dizem, porque uma de suas características fundamentais é a de ser, na maioria dos casos, pessoas que pretendem lucrar com a fé (ou seja, viver da história), fenômeno que está aumentando. Ao longo da história da Igreja, um missionário pregou a mensagem do Evangelho e chamou à conversão para a salvação de sua alma. Pois bem, os influencers católicos só pregam sobre temas relativos ao ser humano e sobre os temas dos quais trata o Santo Padre, com o Evangelho deixado apenas como desculpa para poderem se chamar católicos, caso precisem citar alguma passagem em algum momento, ainda que seja para referência oposta ao que na realidade diz a Palavra de Deus. Custa-me chamá-los de 'missionários digitais', pois me parece um insulto comparar alguém que posta do sofá ou dá uma palestra no território amigo que é uma paróquia com aqueles que durante séculos arriscaram a vida, e muitas vezes a ofereceram em martírio, para anunciar o Único Deus Verdadeiro para a salvação de milhões de almas. Paulo VI lançou em 1975 a exortação apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi para tratar sobre a evangelização no mundo atual. Destaca a importância dada pelo pontífice nesse documento à tarefa da evangelização como algo próprio de todos os católicos, e não apenas do clero ou dos religiosos consagrados. Posteriormente, em seu longo pontificado, foi São João Paulo II, o grande totem (ídolo?) dos neoconservadores, quem disse que 'era necessária uma nova evangelização, com novos métodos e novos evangelizadores'. São João Paulo II, ao começar o terceiro milênio, convidava a Igreja a 'remar mar adentro' enfrentando uma nova evangelização: 'nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão'. Recordando que se deve evangelizar as pessoas e também a cultura. O adjetivo 'novo' – dizia o papa – não significa a denúncia do passado, ou a renúncia da missão praticada até hoje. Nova porque há novos desafios e novas situações nas quais semear o Evangelho. Trata-se de uma revisão de nossas práticas pastorais, voltando à fonte do Evangelho e da missão da Igreja. Mais de 300 vezes, João Paulo II retomou a expressão 'nova evangelização' enfatizando a necessidade de 'levar Cristo com um novo ardor, novos métodos e novas expressões' (João Paulo II, discurso à XIX Assembleia do CELAM). Por sua vez, Bento XVI abriu o Sínodo sobre a Nova Evangelização afirmando que 'evangelizar é ter o fogo de Deus dentro e acendê-lo com coragem no mundo (…) É evangelizador se se tem no coração a consciência de que é Deus quem age na Igreja e se se tem uma paixão ardente de comunicar Cristo ao mundo'. Francisco, por sua vez, considerou que 'o fundamental para poder evangelizar era contar com pessoas que se encontraram com Jesus Cristo e se converteram em seus discípulos'. O Pontífice descrevia a riqueza dessa experiência que nos lança à missão no nº 1 da Evangelii gaudium: 'Nesta Exortação quero dirigir-me aos fiéis cristãos para convidá-los a uma nova etapa evangelizadora marcada por essa alegria, e indicar caminhos para a marcha da Igreja nos próximos anos'. É fundamental que avivemos nosso encontro pessoal com Jesus Cristo para poder ser discípulos missionários' (cfr. EG 3). Deste breve repasso histórico da aparição e desenvolvimento do conceito de 'nova evangelização', gostaria de destacar três questões: Trata-se de uma nova mostra de que TUDO devia ser revisado e renovado após o Concílio Vaticano II. Quem levou a cabo a revolução que isso supôs não quis deixar nada em pé. Para quem não quer ver que foi uma demolição e uma construção ex novo, sobre distintos fundamentos que requer como única possibilidade uma hermenêutica de ruptura, porque nada do que a Igreja sempre fez é considerado válido já. Tudo tem que ser novo. Implicou todos os batizados na evangelização. Conceito não novo como princípio, mas sim como prática: o eixo do ensino, uma das principais missões episcopais, deslocou-se dos bispos e dos sacerdotes para os leigos. Não é que os leigos fossem participar junto aos pastores na evangelização, mas sim que os bispos deixaram a missão de ensino quase exclusivamente nas mãos de leigos. Muitos deles, escusado dizer, sem a mínima formação para anunciar o Evangelho. Da questão anterior se desprende a necessária pergunta de se realmente os novos evangelizadores leigos anunciam o Evangelho ou anunciam outra coisa. Vamos desenvolver esse aspecto. Historicamente, os missionários se dirigiram para terras de pagãos ou de infiéis (maometanos) para levá-los à conversão a Deus mediante a pregação do Evangelho. Vimos recentemente, em uma explicação brilhante de Romano Amerio, como essa evangelização ad gentes foi reduzida a uma atividade de ajuda material própria de uma ONG qualquer, e não da Igreja Católica, depois que o Concílio mudou o conceito de liberdade religiosa, equiparando a 'validade' de todas as 'religiões' e inutilizando a missão para a evangelização. Consideremos a diferença fundamental entre o título do esquema que havia preparado o cardeal Ottaviani, 'De tolerantia religiosa', com o que finalmente foi aprovado em seu lugar, que falava de 'liberdade religiosa', não desde a perspectiva da 'liberdade da religião', mas da 'liberdade de religião' ou equivalência de validade e verdade das distintas crenças de diferentes coletivos não católicos. Aí se centrou o alarme de Monsenhor Lefebvre, quem, ele sim, havia sido um bispo missionário: o novo conceito de liberdade religiosa inutilizava a missão. Mais recentemente, Francisco falou do proselitismo como 'pecado', com a falácia argumentativa de que o proselitismo era a evangelização pela força. E há algumas semanas, com as anotações à declaração Nostra Aetate, Leão XIV declarou obsoleta e quase ilícita a evangelização, 'que não tem mais sentido nesta aldeia global'. Literalmente, a nota indica que 'em um mundo interconectado como uma 'aldeia global', já não têm sentido nem a defesa intransigente nem o proselitismo agressivo como únicas formas de encontro com o outro', ao mesmo tempo que esclarece que 'o diálogo inter-religioso não busca diluir as crenças, mas construir uma sociedade fraterna que respeite as diferenças mantendo a própria identidade e a centralidade de Jesus Cristo'. Não sei, Rick, vejo na última frase uma grande aporia. Mas nos tempos da pós-verdade que também parece ter alcançado a Igreja, talvez isso nem sequer importe. Diante dessa situação, e diferentemente dos missionários que durante séculos viajaram para terras distantes, a missão dos novos influencers católicos se desenvolve no continente digital, como indica o nome dessa figura, os 'missionários digitais', ou também, como dizíamos no início, em paróquias, eventos das universidades do CEU, congressos diocesanos ou de conferências episcopais, etc. Curiosamente, quem assiste a esses encontros já está batizado e já se supõe católico praticante. Que missão realizam então esses missionários? Basicamente, pescam em um aquário. Assim, o sucesso é fácil, mas com armadilha. Por isso podemos nos perguntar se são realmente 'missionários', em primeiro lugar, porque estão falando aos mesmos batizados. E também se do que falam são temas que os missionários históricos trataram. A temática fundamental dos missionários digitais é muito limitada: teologia do corpo em todas as suas variantes. Alguns ostentam um diploma de 'experto' nessa teologia desenvolvida por São João Paulo II, a partir de um curso online de seis meses oferecido pela Universidade Francisco de Vitoria (Legionários de Cristo / Regnum Christi). Por outro lado, e como temos dito em outras ocasiões, tudo se baseia em suas próprias experiências pessoais. Falando disso, vocês notaram que já não só os influencers, mas nem sequer o Papa, têm Deus como tema central de sua mensagem, mas sim o homem? Os títulos sobre o angelus do domingo, as catequeses das terças e as audiências são claros. Muita política, ecologismo, paz; e nada (ou muito pouco) de Deus. E que fique sempre claro que o de antes não vale, que agora é preciso fazer as coisas de maneira diferente. Como no caso da evangelização que citamos. É a neo-igreja sinodal, que não disfarça sua novidade, mas a enarbola. Nesse sentido, há tempos penso em uma questão que me parece muito importante: quando estudei Ciências Religiosas no Instituto Superior de Barcelona, havia uma disciplina no primeiro trimestre chamada 'antropologia teológica'. Bem. Era a compreensão do homem desde a teologia, desde Deus. A disciplina, por tratar da criatura, do homem, não se chamava 'teologia antropológica', pois teria sido um erro, sendo a teologia etimologicamente o 'estudo das coisas de Deus'. Por isso existe a teologia dogmática, a teologia fundamental e outras. Mas, se a teologia é o estudo das coisas de Deus, como se explicam a teologia do corpo, a teologia do lar e até a teologia do jardim? Não deveriam ser, no mínimo, referidas simplesmente como questões antropológicas? Se não estamos aqui diante da divinização do homem e de uma 'religião' cujo mensagem substituiu Deus não só por uma visão antropocêntrica, mas antropólatra, não sei o que é. Aproveita-se a estrutura da Igreja no mundo para lançar uma mensagem totalmente distinta, seguidora do mundo, uma mensagem nova, que pode ser recolhida em tudo o que ultimamente vem sendo conhecido como sinodal. Voltando ao repertório temático dos missionários digitais, podemos acrescentar que este não é só limitado, mas é seletiva e deliberadamente limitado: não se metem nas questões espinhosas, mas as ignoram, como se não ocorressem. E se em alguma ocasião têm que se molhar, estarão sempre do lado dos bispos e do papa. Por duas questões: pelo hiperpapalismo neocon, que obedece cegamente ao papa; e porque não mordem a mão que lhes dá de comer. É um caso claro de substituição da verdade pela autoridade. Os bispos que fizeram deixação de sua missão de ensino e os missionários digitais se necessitam mutuamente na igreja sinodal. E com esse evidente deslocamento do centro da mensagem, nos encontramos com que vários de nossos missionários digitais pátrios estão fazendo as Américas nos últimos anos. Como faziam e fazem os artistas espanhóis, os do mundo da farândula, desenvolver suas carreiras na Ibero-América, onde o mercado alvo é infinitamente maior. Uma pergunta que podemos nos fazer a respeito é que, se o apostolado desses missionários é digital, como é que precisam viajar para as Américas ou para onde seja...


📎 Fonte original: Infovaticana

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